Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.
Capítulo 1 A Chefe Isabelle Foster acordou numa cama que não reconhecia. Ela piscou, ainda zonza, encarando o quarto estranho e tentando remontar os pedaços da noite anterior. Ontem tinha sido o jantar do departamento, e ela, sem querer, bebeu muito além da conta. Depois disso... A mente dela, de repente, ficou afiada quando a lembrança veio à tona. Os gemidos profundos dele ainda ecoavam em seus ouvidos, como assombrações. Ela cortou o pensamento ali mesmo—tudo o que queria era cair fora daquele rolo. Pegou do chão a própria camisa branca rasgada, mas não dava para sair daquele jeito. As mãos tremiam quando ela jogou o tecido arruinado de lado, e então avistou uma roupa limpa estendida sobre a cama. Ele claramente deixara aquilo para ela—um tailleur, saia e blazer impecáveis. Vestiu tudo o mais rápido que pôde. As peças não eram exatamente o seu estilo, então ele provavelmente pegara qualquer coisa para dar conta da situação. Ao se olhar no espelho, reparou que o pescoço estava totalmente intacto, mas do colo para baixo havia marcas por toda parte. Ha! Será que eu devia agradecer por ele ter sido um cavalheiro, sei lá? Como se estivesse mais preocupado com as pessoas descobrirem que passou a noite com alguém! Isabelle suspirou e saiu do banheiro, absorvendo o ambiente. Era uma suíte enorme, mas sem vida, como se ninguém realmente morasse ali. Não parecia exatamente um hotel, mas também parecia. Ela apanhou a bolsa no criado-mudo e foi em direção à porta. No fim das contas, com certeza não era um hotel. Quando abriu a porta do quarto, um living imenso se estendeu diante dela, e uma figura familiar saltou aos olhos. Ele estava no sofá, de fones de ouvido, com uma almofada apoiada no colo e o notebook por cima. Vestia um conjunto preto de ficar em casa e parecia completamente relaxado, casual. Ao ouvir a porta do quarto, ele ergueu o olhar—olhos intensos, certeiros. O homem sentado ali era o chefe dela, Damian Cross. Ele não era aquele CEO lendário que nunca se envolvia com ninguém? Pelo desempenho da noite passada, retenção não foi o forte. Ele se comportou como um lobo faminto que ficou décadas trancado. Ela ficou paralisada, prestes a dizer alguma coisa, quando Damian falou primeiro. "Estou em reunião." A voz dele saiu grave e áspera. Isabelle fechou a boca na hora, porque entendeu exatamente o recado. "Venha tomar café."Ele se inclinou de leve e, com dois dedos, empurrou um copo de leite pela mesinha de centro, fazendo-o deslizar até outro prato de comida. Mas ele não percebeu que, ao se inclinar, os chupões espalhados pelo pescoço encostaram bem na câmera, dando a todos os executivos presentes na reunião uma visão nítida de cada marca. O rosto de Isabelle ficou rubro de vergonha. Muito provavelmente eram dela—nem tinha percebido que a sua aptidão de sucção era tão poderosa assim. Ela queria, do fundo da alma, que aquilo fosse um quarto de hotel para só abrir a porta e ir direto para casa. Sentou-se com as mãos trêmulas, desviando o olhar de tudo, menos dele. Tudo o que pôde fazer foi obedecer: sorver o leite em pequenos goles e morder o sanduíche idêntico ao dele. Damian tinha fama de frio—frio no trato, no temperamento, frio em todos os sentidos. Então sim, Isabelle tinha mexido com o cara errado. Devia ter entrado no carro errado ontem à noite. Mas mesmo que eu tenha entrado no carro errado, por que esse chefe de gelo não percebeu que eu não era a pessoa certa? Ele dormiu com uma funcionária. Será que não liga nem um pouco para a própria reputação? Quinze minutos depois, ele encerrou a reunião e fechou o notebook. Só então começou a comer o próprio café da manhã, sem pressa, no ritmo dele. "Desculpe. Eu não sabia que era sua primeira vez. Fui um pouco intenso demais." O tom permaneceu tão frio quanto durante a reunião, e o rosto dele não revelou emoção alguma ao dizer aquilo. Isabelle tinha acabado de recuperar o controle das emoções, mas voltou a corar de alto a baixo. O que aconteceu, aconteceu. Será que dá para parar de tocar nesse assunto? "O médico da família vai chegar já já. Espere a consulta para depois ir embora." A voz dele soou factual, objetiva. Pelo amor... Será que ele teme que eu engravide e apareça para reivindicar a fortuna? Isabelle terminou o leite e pegou o copo d’água ao lado. Bebeu devagar, um gole por vez, porque não fazia ideia do que dizer a ele. Ele comeu rápido e, num piscar, já tinha limpado o prato. "Fique aqui. Eu ainda preciso passar no escritório hoje, então vou pedir que meu assistente a leve para casa." Isabelle tentou impedir, apressada: "Sr. Cross, eu posso voltar sozinha. Sem problema nenhum." "Está dizendo que eu não fui bem o suficiente na noite passada?" Ele ergueu um pouco o rosto, e havia algo ali que quase soou magoado. "O quê?" Por algum motivo, o coração de Isabelle disparou. Como eu ousaria dizer isso? Ela ficou sem palavras e sem saber como rebater aquela provocação. Era a primeira vez na vida que alguém a atropelava verbalmente daquele jeito. Se ele não fosse seu chefe, ela já teria perdido a paciência e revidado. "Sr. Cross, o dr. Morgan chegou." Uma governanta mais velha apareceu por perto. Ele não disse nada. Apenas continuou observando Isabelle em silêncio. Isabelle era lindíssima—pele dourada de sol, cabelo louro maravilhoso. Era mestiça, e absolutamente deslumbrante. O corpo dela também chamava atenção, do tipo que deixava outros caras com inveja de quem estivesse saindo com ela. O olhar dele, fixo, a deixou desconfortável. As bochechas já estavam vermelhas quando o calor subiu pelo corpo inteiro. "Venha comigo." A voz de Damian cortou a tensão, e ele soltou um suspiro quase inaudível pelo nariz. Isabelle obedeceu, porque o que mais podia fazer? De alguma forma, tinha conseguido irritar um dos maiores nomes da moda. Quando voltaram ao quarto onde tinham se acabado a noite inteira, o coração dela recomeçou a martelar, e as palmas suaram só de encarar a cama. Pelo menos as camareiras já tinham deixado tudo impecável. Uma médica entrou, e então Damian saiu e fechou a porta atrás de si. Isabelle achou que talvez fosse receber a pílula do dia seguinte ou uma injeção, mas não. A médica veio examiná-la lá embaixo e aplicar pomada. Foi humilhante ter outra pessoa inspecionando os estragos da noite anterior. Ela teve que admitir, porém, que o creme aliviou de verdade a sensibilidade. Ficou o tempo todo com as mãos cobrindo o rosto, morrendo de vergonha. Quando finalmente saiu, Damian já não estava mais ali. Quem a esperava era Brian Hughes, o assistente de Damian. Brian tinha a idade dela—os dois tinham 22 anos—, se formaram na mesma universidade, fizeram entrevista na mesma época e entraram no trabalho no mesmo dia. A única diferença eram os cargos. Ele era o único assistente de Damian, praticamente sua mão direita. Isabelle ficou ao lado do carro, olhando Brian ao volante com aquele sorriso bobo, e sentiu a própria dignidade espalhada pelo chão, impossível de recolher. Entrou no carro e ficou encarando a janela, murmurando: "Eu entrei no carro errado, não foi?" "Foi sim, futura sra. Cross."Brian estava se divertindo, e então começou a narrar, dramático: "Já te conheço há um tempo, e nunca vi você beber tanto. Você entrou no carro errado, cambaleando, se jogou em cima do sr. Cross, chamou ele de Baymax e, do nada, tascou um beijo. Foi feroz!" "Ontem à noite, o sr. Cross também tinha bebido um pouco, mas ele nem se mexeu. Você sabe que ele tem essa coisa de não gostar de contaminação, né? Pois é, você rasgou a camisa dele. Botões voaram para tudo quanto é lado." Ela abaixou a cabeça, tentando não visualizar a cena com nitidez demais. Brian acrescentou: "A ideia era levar você para casa, mas como você mora sozinha, o sr. Cross ficou com receio de te deixar largada, então te trouxe para a casa dele." "Ha."Ela soltou uma risadinha forçada. "Então, você e o sr. Cross..."Brian lançou um olhar de cima a baixo. Ela teve que admitir que Damian fora esperto: não havia uma marca sequer no pescoço. "Exatamente o que você está pensando." Ela apontou para o próprio pescoço ileso. Brian arqueou a sobrancelha: "Pelo visto, o sr. Cross foi um cavalheiro, afinal." "Foi sim." Ela arrastou as palavras, sarcástica. Um cavalheiro. Mais para cavalheiro de fachada. Capítulo 2 Um Humor Bastante Bom Primeiro dia de volta depois do feriado: no trabalho, todo mundo pegava leve, e muita gente ainda estava de férias. Ainda assim, a empresa tinha gente suficiente presa à rotina — e Isabelle era uma delas. Ela não deixou que Brian a deixasse bem em frente ao prédio; se alguém a visse saindo do carro de Damian, nunca conseguiria explicar aquilo. Desceu algumas quadras antes do escritório e, silenciosamente, entrou numa farmácia para comprar a pílula do dia seguinte. Não tinha certeza se ele tinha usado proteção na noite anterior e achou melhor se precaver. Foi quando o celular começou a tocar. Era o namorado dela, Gary Peterson. “Hum!” Isabelle encarou aquele nome repulsivo na tela, e seus lábios se curvaram num sorriso amargo, sarcástico. Gary e Isabelle estavam juntos havia cinco anos, desde a faculdade. Ela fora a aluna prodígio que pulou uma porção de séries, e assim acabou conhecendo Gary, três anos mais velho. Dois anos atrás, Isabelle se mudou para o exterior com a mãe para estudar, e desde então eles viviam um relacionamento à distância. Gary, porém, não aguentou a solidão e acabou se enroscando com uma das melhores amigas dela, lá na cidade natal. Isabelle sabia de tudo, mas ainda não os confrontara porque não queria desperdiçar energia com drama de pouca monta. Planejava algo maior, algo que realmente os atingisse onde doía. Ela recusou a chamada e, quando estava prestes a bloquear o telefone, surgiu uma mensagem no aplicativo de conversas. Era de Damian. Ficou paralisada e apenas encarou o aviso por vários segundos, achando que devia estar vendo coisa. Por que ele está me escrevendo por mensagem? É como chefe, ou é por causa da nossa noite de ontem? Ela travou a mandíbula e ignorou. Isabelle era estilista e trabalhava na Cross Boutique havia apenas um ano; fora do seu supervisor direto, mal se comunicava com os figurões. A Cross Boutique era a maior empresa de moda de Aldoria, com vendas internacionais; alguém como Damian — um figurão completo — não era alguém com quem ela cruzava normalmente. A noite anterior fora um acaso: ele apareceu no desfile de Independência depois que bateram todos os recordes anteriores. Nesse instante, o celular vibrou com uma mensagem do departamento de criação: “Reunião na sala de conferências em dez minutos.” “Droga!” Isabelle disparou em direção ao escritório. ***** Dentro do prédio do Grupo Cross, ela encontrou sua melhor amiga no elevador. “Isabelle, você detesta roupa social! Por que é que veio de paletó e saia hoje?” Eleanor Price, também estilista, a examinou de cima a baixo. Pois é, Isabelle realmente não gostava de traje profissional. Tentou bancar a calma e puxou discretamente a barra do conjunto. “Quis ostentar meu desempenho ‘excepcional’ e resolvi destacar meus melhores atributos”, disse. “Ha!” Eleanor lançou um olhar para o busto dela e, em seguida, deu um tapa firme no traseiro. “Seja lá quem vai casar com você, vai ser a pessoa mais sortuda do planeta!” Ai! Jesus, garota! Isabelle cravou os dentes, mas não soltou um som. Quando as portas do elevador já se fechavam, uma mão surgiu na fresta e as interrompeu. Brian deu um passo para o lado, e então Damian entrou, vestindo um terno completamente preto que lhe conferia uma imponência de gelar a espinha. Isabelle e Eleanor se encolheram para abrir espaço. Isabelle engoliu em seco: Damian ficara justamente ao lado dela, com Eleanor à frente. Ela não se atreveu a olhar para ele, e não sabia se era pelo aperto do elevador ou pela pura pressão da presença dele, mas sentiu que lhe faltava ar. O calor subiu das orelhas até as faces. Estavam tão próximos que, naquele momento, seria estranho tentar se afastar. Ela pôde sentir, sutil, o cheiro de sândalo que vinha dele — o mesmo da noite passada. Deus, que perfume... Mordeu o lábio e tentou se acalmar, afastando da cabeça o que acontecera. Por fim, o elevador parou no 28º andar, onde ficava o departamento de criação, e as duas praticamente dispararam para fora. “Levei o maior susto!” Eleanor levou a mão ao peito e cochichou. “Depois do jantar de ontem, eu vi uma mulher no carro do Sr. Cross! Meu Deus, você não tem ideia. Ela estava com os braços em volta do pescoço dele, beijando sem parar, e ele nem tentou impedir! Você acha que o Sr. Cross finalmente se deu bem? Tipo, quebrou de vez essa imagem de CEO celibatário?” O rosto de Isabelle ficou em brasa — normalmente ela vivia para esse tipo de fofoca, mas agora que fazia parte dela, não conseguia dizer uma palavra. “É mesmo?” “Eu até mandei uma mensagem para o Brian perguntando, mas boca dele é um cofre. Não soltou nada.” Eleanor prendeu o crachá e alisou o caderno. Dez minutos depois, todo mundo se reuniu na sala de conferências. Não havia muita gente, porque boa parte estava de férias, e a reunião era sobretudo para encerrar a campanha recente. Quem abriu foi Harrison Osman, o galã e diretor do departamento de criação. Ele estava confiante com o desempenho da campanha, e todos diziam que levaria o maior bônus do ano. Por algum motivo, porém, Isabelle teve a sensação de que ele pouco se importava com o resumo em si; parecia mais que queria que todos massageassem seu ego. Eventualmente, ele voltou a atenção para Isabelle. “Precisamos agradecer à Srta. Foster. Os desenhos dela foram os mais utilizados este ano, e as peças venderam melhor do que qualquer outra que lançamos...” Isabelle apertou os lábios num sorriso educado. Já tinha ouvido a mesmíssima ladainha umas dez vezes na noite anterior e não queria passar por isso de novo. Harrison era talentoso, isso ela não podia negar; sua postura expansiva, com um toque de ousadia, o tornava bom no que fazia. Muita gente curtia trabalhar com ele. Mas Isabelle não gostava dele porque ele vivia dando a entender que estava a fim dela, como se quisesse vê-la aos seus pés. A reunião terminou rápido, e Brian bateu à porta da sala justamente quando estavam encerrando. “Srta. Foster, o Sr. Cross quer vê-la no gabinete dele.” A expressão de Brian não revelava nada. A sala inteira emudeceu. Isabelle cochilava na cadeira, mas agora sentia uma dúzia de olhares cravados nela. O gabinete do CEO ficava no 30º andar, e quase ninguém subia até lá. As reuniões geralmente aconteciam no 29º, o que tornava o 30º um lugar misterioso, quase proibido. Chamavam-no de Inferno. O último diretor que fora ao gabinete do CEO saiu de lá com o ombro deslocado, e o antigo assistente de Damian quebrara a perna esquerda e precisara ser levado de maca. Foi por isso que Brian ascendeu tão jovem: ninguém queria aquela vaga. “Sr. Hughes, sabe do que se trata?” Harrison, pela primeira vez, parecia realmente preocupado. Todos os olhares se voltaram para Brian. Sabiam que ele provavelmente não diria nada, mas ainda assim tentaram decifrar algum indício na expressão dele. “Não faço ideia.” A boca de Brian estava trancada como cofre; não se arrancava nada dali. “Entendi.” O rosto de Isabelle permanecera em rubor a manhã toda e não voltava ao normal, e sua mente estava tomada por imagens dele se comportando como um animal selvagem na noite anterior. “Srta. Foster, você não parece bem. Está vermelha desde cedo. Quer pedir atestado e descansar?” Harrison demonstrava esse tipo de cuidado com todos os subordinados, então ninguém estranhou. “Não, vou lá ver o que ele quer e já volto. Mas olha, se eu não voltar, vocês podem dividir todos os croquis da minha sala como minha herança”, disse Isabelle. Ela suspirou, juntou as anotações da reunião e saiu. Seguiu Brian até o elevador; para acessar o 30º andar, era necessário reconhecimento facial ou cartão, então funcionários comuns não podiam subir quando bem quisessem. Brian escaneou o rosto, e o elevador iniciou a subida lenta. “Agora que não tem ninguém por aqui, você me diz o que ele quer?” Isabelle ainda não entendia. “Ele não disse exatamente, mas parecia estar num humor bastante bom”, respondeu Brian. Claro que estava de bom humor. Vai saber quantas vezes ele se satisfez na noite passada. Capítulo 3 Quer Tentar Ser Minha Esposa Três batidinhas suaves ecoaram na porta. "Entre." O estômago de Isabelle revirou quando ela alcançou a maçaneta e empurrou a porta. Damian trabalhava no computador, mas estava diferente daquela manhã. Havia tirado o paletó e vestia uma camisa social preta com dois botões abertos no colarinho; a gravata, abandonada ao lado. Ela mal conseguia distinguir o chupão que deixara no pescoço dele na noite anterior... Ele estava numa cadeira de escritório, sentado de lado, e todo o seu ar parecia preguiçoso e despreocupado, como se só fingisse ser cavalheiro. Ela entrou devagar, e Brian fechou a porta atrás dela com naturalidade. O som mal se ouviu, mas para Isabelle soou ensurdecedor. "Sr. Cross, o senhor queria falar comigo?" disse Isabelle. "Uhum." Damian lançou um olhar para ela, parada junto à porta, e então tornou a fixar a tela do computador. Era isso. Silêncio total. Só um minuto, mas pareceu uma eternidade. Então ele se levantou e caminhou até ela. Ela tinha que admitir: ele era o namorado dos sonhos de qualquer garota materializado. Ridiculamente bonito—traços marcantes, ângulos precisos, olhos intensos e aquele maxilar perfeito. Até Isabelle não conseguiu evitar encarar um pouco além do que deveria. Ao lado dele, o topo da cabeça dela mal alcançava o queixo dele. O corpo dele era um espetáculo—Isabelle não podia negar, porque, na noite passada, no banheiro, suas mãos aventureiras haviam passado a maior parte do tempo pelos gomos perfeitamente definidos do abdômen... Meu Deus, por que estou pensando de novo nas minhas vergonhas de ontem à noite? "Sr. Cross, o senhor precisava de alguma coisa?" perguntou Isabelle outra vez. Ela manteve a expressão calma e as palavras nítidas, um autocontrole impressionante, mas por dentro seus pensamentos eram puro caos. "Sente-se." Ele se virou e se acomodou no sofá. Isabelle aproximou-se e sentou a uns dois metros dele. "Mais perto." Ele bateu com a mão no espaço bem ao lado. Isabelle hesitou por dois segundos, então se levantou e se aproximou. Damian a encarou e pareceu se desconectar do mundo. Isabelle entrelaçou as mãos, nervosa. "Ainda dói?" ele perguntou. Isabelle congelou por um instante e depois balançou a cabeça. Ele vai mesmo fazer um debriefing do que aconteceu? "Em que você está pensando?" disse Damian. Isabelle lançou um olhar para ele e flagrou as clavículas perfeitas e as marcas de amor ainda visíveis no pescoço... "Sinto muito, Sr. Cross. Eu bebi demais ontem e, sinceramente, nem sabia que faria algo tão louco com o senhor..." "Não peça desculpas." Ele endireitou o corpo, cortando-a pela metade da frase, recostou-se no sofá e contemplou o perfil impecável dela. "Ontem foi minha escolha," disse, casual. "Sim, você estava bêbada e me beijou, mas tudo o que veio depois foi responsabilidade minha." "Por favor, não continue—" Ela já se sentia humilhada o suficiente sem ter que reviver aquilo cara a cara. "Somos adultos. O que aconteceu, aconteceu. Vamos fingir que nunca aconteceu." O rosto dela parecia ter sido pintado de vermelho vivo. "O que eu sou, seu brinquedinho?" A expressão fria de Damian fazia parecer que ele estava prestes a interrogar Isabelle. "O senhor está entendendo errado," disse Isabelle, e suas orelhas ficaram em brasa. O que ele está tentando fazer? Começar algum tipo de relação inadequada comigo? Mas hoje de manhã ele parecia tão cavalheiro, não faz sentido! "Você consideraria se tornar minha esposa?" "O quê?" Isabelle mal podia acreditar no que ouvira. Seus olhos se encontraram e mantiveram o olhar por um longo momento. Ela não conseguia decifrar o que ele pensava. Ele prosseguiu: "Ontem não usamos proteção, então, se houver um bebê, vamos tê-lo. E, mesmo que não haja, eu assumo responsabilidade por você." Falou com tamanha naturalidade, como se contasse uma história sem grande importância. Isabelle ficou em silêncio, mais lúcida do que jamais estivera. Damian vinha de uma família muito culta e distinta; sua formação era impecável. Provavelmente era bem conservador também. Do contrário, não estaria solteiro aos vinte e oito sem jamais ter se casado. Agora que haviam dormido juntos, talvez ele não conseguisse transpor seus próprios padrões morais. Mas Isabelle sabia que não alcançaria esse patamar, porque conhecia bem de onde vinha. Era filha ilegítima de sua mãe com um empresário. Nem sabia quem era seu pai. Passara a vida lidando com fofocas e cochichos, e, se se envolvesse com alguém tão imaculado quanto Damian, apenas iria puxá-lo para baixo. Além disso, depois de tudo que Gary a fizera passar, ela não podia simplesmente mergulhar em algo novo com outra pessoa. "Sinto muito, Sr. Cross, mas eu não quis nada disso. Já tomei a pílula hoje de manhã, então o senhor não precisa se preocupar. Não quero ser a Sra. Cross nem nada. Já que o senhor sente que me prejudicou ontem, e eu sou a pessoa envolvida e não vou fazer disso um problema, vamos encerrar por aqui. Não vamos tocar nesse assunto outra vez." Os olhos de Damian escureceram por trás dos óculos sem aro, insondáveis. Isabelle falou tudo aquilo de uma vez só e, em seguida, se virou para sair da sala do diretor executivo. "Espere." Ele se levantou devagar e, por um instante, as palavras dela o deixaram realmente surpreso. Ele era um dos magnatas mais poderosos de Aldoria, e incontáveis mulheres tentavam se aproximar dele, mas era a primeira vez que via uma mulher recusá-lo. Isabelle respirou fundo, virou-se e o encarou. "Há mais alguma coisa, Sr. Cross?" "Me adicione no WhatsApp." A expressão dele permaneceu calma, e ele ergueu o celular mostrando o ID. Damian continuou: "No mês que vem haverá uma semana de moda em Solvenia, e a companhia planeja enviar você e o Sr. Osman. Se não quiser ir, finja que eu não disse nada." "E," acrescentou, "você não precisa responder à outra pergunta agora. Vou lhe dar tempo para pensar." Aff! Típico homem de negócios! Com meia dúzia de palavras, já havia conduzido Isabelle exatamente para onde queria. Nem todo mundo ganhava a chance de ir à semana de moda de Solvenia, e ela não podia desperdiçar uma oportunidade dessas. Além do mais, não era como se ela tivesse algo a perder. Ela pegou o celular e o adicionou no WhatsApp. Quanto à outra pergunta, ela simplesmente a ignoraria. ***** Quando voltou à sua mesa, Eleanor apareceu na hora, ávida por fofoca. "E aí? O escritório do diretor é mesmo de cair o queixo?" Sinceramente, ela mal reparou em alguma coisa, porque as perguntas certeiras de Damian a puxaram o tempo todo. "É daquelas coisas que você tem que viver pessoalmente," disse Isabelle, pressionando os lábios e piscando de leve, travessa. "Na próxima, eu faço um pedido para você ver ao vivo." "Amiga, eu estava morrendo de medo. Achei que iam te carregar numa maca," disse Eleanor, conferindo dados no computador e lançando olhares para Isabelle. "Srta. Foster!" Harrison veio correndo, quase saltitando de empolgação. Todos se viraram para ele, e sua expressão exageradamente feliz chamou a atenção do departamento inteiro. "Sr. Osman," respondeu Isabelle prontamente, levantando-se. Na noite anterior, quando Damian segurou o queixo dela e a fitou de cima, exigindo saber se ela gostava daquilo, ela desenvolveu um receio por todo esse jogo de poder. "Acabaram de mandar um memorando lá de cima. Você e eu entramos na lista da Solvenia Fashion Week!" sorriu Harrison. "Eu sei," disse Isabelle, sem soar nem um pouco surpresa. A empresa estava cheia de gente com muito mais tempo de casa, e, para alguém com apenas um ano ali, isso iria pintar um alvo enorme nas costas dela. Damian provavelmente só estava dando essa vaga para compensar o que aconteceu ontem à noite. Assim que a notícia saiu, o departamento entrou em ebulição. Alguns ficaram eufóricos, outros irritados, mas os mais jovens, recém-contratados, se sentiram ainda mais motivados. Os veteranos da empresa acharam totalmente injusto. Trabalharam ali por anos e alguns nem tinham ido à semana de moda da cidade, quem dirá a uma internacional. Isabelle não se importou. Manteve a cabeça baixa e foi cumprir suas tarefas. Uma mensagem de Gary pipocou na tela: "Isabelle, tá livre hoje à noite? Vamos ver um filme?" Isabelle pressionou os lábios. Gente sem vergonha era imbatível. Afagava a amante enquanto colocava a namorada oficial num pedestal. Ela respondeu: "Claro!" Ela fez uma captura de tela e postou no Insta, configurando para que apenas sua melhor amiga, Nicole Gale, visse, com a legenda: "Cinco anos firmes e fortes." Nicole não se conteve e mandou na hora: "Amiga, uma amiga e eu também vamos ao cinema hoje. Qual vocês vão ver? Que horas?" Ela estava tão empenhada nesse plano que Isabelle quase se sentiu culpada por não lhe dar um troféu. Isabelle não respondeu e apenas desligou a tela.