Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Larissa Silva sempre se achou uma garota comum controlada pela mãe, distante do príncipe da escola, Gustavo Oliveira. Após a formatura, achou que nunca mais o veria — até que, dez anos depois, ele reaparece como seu urologista e candidato a casamento arranjado.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Ana hipotecou sua casa para o casamento do filho, William. 💔 Mas um imprevisto a fez perder tudo! 😭 Irene, a esposa de William, a expulsou sem piedade. 🚪 Desesperada, Ana encontra Rebeca, uma alma gentil que vê sua bondade. 🙏 Rebeca, com um plano secreto, organiza um encontro às cegas entre Ana e seu pai, Leonardo. 💖 O que acontece depois? Um casamento inesperado! 💍 E a surpresa maior? Leonardo é um magnata e Rebeca, sua filha perdida! 🤯 Juntos, eles enfrentam a família de Irene e o ex-marido. 💪 Ana finalmente encontra a felicidade que merece! ✨
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Larissa Silva sempre se achou uma garota comum controlada pela mãe, distante do príncipe da escola, Gustavo Oliveira. Após a formatura, achou que nunca mais o veria — até que, dez anos depois, ele reaparece como seu urologista e candidato a casamento arranjado.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
Capítulo 1 Ponto de Vista de Elara Nunca imaginei que veria meu marido, o Alfa Kiran, de novo apenas trinta minutos após meu aborto espontâneo. E certamente nunca imaginei que seria assim: através da porta entreaberta de um quarto de hospital, vendo-o embalar outra mulher em seus braços com uma ternura que eu nunca conheci. Seu primeiro amor. Celeste. Ela olhou da cama do hospital, frágil e assustada. A luz captou a curva suave, mas inconfundível, de sua barriga sob a camisola. Ela estava grávida. Uma cólica nova e lancinante rasgou meu baixo ventre. Bem no fundo, minha loba — fraca pela perda de sangue e pela dor — soltou um ganido moribundo que só eu podia ouvir. — Tragam todos os especialistas deste hospital aqui para cima, a voz de Kiran ecoou do quarto, tensa e cuidadosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido. — Façam todos os exames. Quero ela e o bebê cem por cento seguros. Minha respiração falhou. Apenas algumas horas atrás, neste mesmo hospital, eu era a pessoa em uma maca fria, ouvindo um médico me dizer com pena profissional: — Sinto muito, Sra. Blackwood. Após três horas, não conseguimos estabilizar os batimentos cardíacos do feto. E as treze ligações que eu havia feito para Kiran, implorando... aquelas notificações evidentes de "Recusada" ainda estavam no meu celular. — Esta suíte está reservada para a companheira do Sr. Blackwood — um guarda disse friamente da porta, olhando através de mim. — Você precisa sair. Agora. Companheira... do Sr. Blackwood? Então, o que eu era? Abri a boca, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Apenas um leve chiado saiu. Eu havia chorado até secar na mesa de cirurgia. Horas de gritos desesperados e silenciosos haviam me deixado vazia. Minha cadeira de rodas foi virada imediatamente. Eu olhei para cima. A enfermeira parecia desconfortável. Ela sussurrou para mim: — Sinto muito, Sra. Blackwood. O Sr. Blackwood reservou este quarto especificamente para a Srta. Rivers. E o hospital está lotado, deixe-me levá-la para fora. Para fora do hospital? Logo depois de eu ter sofrido um aborto? Minutos depois, eu estava sozinha do lado de fora da entrada principal do hospital como lixo descartado, as pessoas fluindo ao meu redor. Ninguém perguntou se eu queria sair do hospital. Quando a cadeira de rodas foi empurrada para fora, eu apenas fiquei sentada. As costas de Kiran, enquanto segurava Celeste, já haviam explicado tudo para a matilha. Insignificante. Eu. O vento jogava a chuva de lado, encharcando as pernas da minha calça. Um frio de congelar os ossos subiu pelos meus tornozelos, travando minhas articulações. Peguei o celular na bolsa, com as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurá-lo. Chamei um Uber. Voltei para o lugar que chamávamos de "casa". O calor me envolveu instantaneamente. Mas meu corpo ainda estava tremendo. Peguei uma jaqueta do guarda-roupa e a vesti. No canto, um vislumbre de tecido com desenhos — roupas de bebê. Três meses. Eu planejava contar a ele depois de três meses. Não era mais necessário. A pequena vida que esteve conectada a mim simplesmente... se foi. Deixando um vazio escuro e doloroso. Ding! Meu celular tocou. O nome de Kiran piscou na tela. — Onde você está? — Sua voz era puro gelo. — Elara, não me diga que esqueceu que dia é hoje! Parei, olhando para o relógio na parede. Dia quinze. O jantar mensal obrigatório da família na casa da matilha, exigido por Walter Blackwood, seu avô. Apertei meus lábios rachados. — Não estou me sentindo bem esta noite. Você pode ir ao jantar sem mim. — Poupe-me disso. — Kiran soou como se tivesse ouvido a piada mais ridícula. — Você não é sempre a primeira a aparecer nesses jantares de família? Toda aquela armação para casar comigo... só para poder brincar de "Sra. Blackwood" na frente de todo mundo? — Não desperdice meu tempo. Apenas me mande sua localização. Estou enviando um carro. Era uma ordem, não uma pergunta. Fechei os olhos, engolindo o nó na garganta. — Não é uma desculpa... Eu estou realmente doente. Minha voz saiu tão fraca que eu mal conseguia me ouvir. Como ele não conseguia perceber? — Elara, estou te avisando: não teste a minha paciência! Você vem para a casa da matilha, viva ou morta. Venha rastejando, se for preciso! Não respondi, apenas desliguei. Mais um segundo da voz dele e eu teria desmoronado e contado tudo. Não havia sentido. Eu não iria choramingar. Não imploraria por migalhas de sua atenção como uma loba ferida. Minutos depois, eu estava vestida e parada lá fora no vento cortante, esperando. E horas depois, um Maybach preto finalmente encostou. O motorista de Kiran saiu e abriu a porta traseira respeitosamente. — Luna, por favor, entre. Havia bastante espaço na parte de trás. Kiran estava sentado do outro lado, imóvel, como uma escultura. Distante. Frio. Olhei para ele e só conseguia vê-lo segurando Celeste no hospital — com uma ternura que nunca foi destinada a mim. Abaixei a cabeça e entrei no carro. Assim que o carro arrancou, o celular dele tocou. Ele atendeu na hora, sua voz descongelando do gelo para algo caloroso. — Celeste? Você deveria estar dormindo. Uma pausa. — Sim, vai acabar logo. Estarei de volta antes que você perceba. — Peça o que quiser da cozinha. Só não se levante, o médico recomendou repouso absoluto. Mantenha-se aquecida, ok? Eu ouvia, em silêncio. Então ele sabia, sim, como ser gentil. O aquecedor do carro estava no máximo, mas senti um frio que foi direto para os meus ossos. A ligação durou bastante tempo. Depois que ele desligou, o carro mergulhou em um silêncio mortal novamente. Eu não consegui me conter. — Celeste... quando ela voltou? Kiran franziu a testa. Ele se virou para mim, como se finalmente lembrasse que eu existia. — Não é da sua conta perguntar isso, Elara. Uma dor surda se espalhou pelo meu peito. Certo. Que direito eu tinha? Aos olhos dele, eu era a vilã que roubou seu amor, que forçou este casamento. Ele me odiava. Me desprezava. Desejava que eu desaparecesse. Se não fosse pelo que aconteceu naquela época... Não. Fechei os olhos, empurrando tudo de volta para o seu devido lugar. No meu peito, minha loba está ganindo — profunda e tristemente. Como uma despedida. Kiran, este provavelmente será o último jantar em família a que compareço com você. Capítulo 2 Ponto de Vista de Kiran Elara estava sentada ao meu lado, seus olhos vazios como águas paradas. Ela era assim desde o dia em que nos conhecemos. Uma boneca linda e sem vida. Eu já deveria estar acostumado com isso. Então por que hoje? Por que essa dor surda, de novo, vinda do nada? — Nossa companheira está sofrendo. Vá até ela. Console-a. — Meu lobo, Vincent, uivou de desconforto dentro de mim, suas garras arranhando meus nervos. De novo. Lembrando-me da verdade absurda e irritante. Companheira? Não. Ela não era. Ela era a filha do homem que matou meu melhor amigo. A barreira colocada entre mim e Celeste. O maior erro da minha vida. Eu não sabia por que a Deusa da Lua havia nos acorrentado um ao outro, mas eu nunca aceitaria isso. Ela não merecia ser minha companheira. — Silêncio — ordenei friamente em minha mente. Vincent soltou um suspiro frustrado e ficou quieto. Talvez eu o tivesse convencido. Ou talvez ele tivesse desistido de tentar me convencer. Dois anos. E ainda tínhamos essas discussões inúteis. Brigar. Convencer. E então, silêncio. Um silêncio terrível e familiar tomou conta do carro. O mesmo de sempre. Mas não exatamente. O silêncio, aquele cheiro fraco dela... sem motivo, isso me puxou de volta. Para outra noite. Nossa noite de núpcias. Nossa noite de núpcias. Eu me lembro da minha noite de núpcias. Eu queria não lembrar. Mas algumas memórias não desaparecem. Elas esperam. Aquele quarto estava igualmente silencioso. A luz da lua cortava as vidraças, pintando grades de prisão no chão. Elara Sterling. Não... Elara Blackwood. Minha companheira. Minha sentença. Ela estava sentada quieta, uma silhueta no quarto, usando uma camisola de seda branca que seguia as linhas de um corpo que eu não tinha o direito de desejar e tinha todos os motivos para odiar. Ela olhou para cima quando entrei. Eu vi os olhos dela. Castanho-claros. Um âmbar suave. Na meia-luz, pareciam acolhedores. E inocentes. Inocentes demais. Esse era o problema. Como se nada de ruim jamais a tivesse tocado na vida. Mas como isso seria possível? Ela era filha de um assassino. Lembrei-me da morte trágica de Liam. A raiva, quente e descontrolada, ferveu no meu sangue. Estiquei o braço, minha mão apertando o maxilar dela. Minhas garras espetaram sua pele. — Kiran... por favor... Ela choramingou meu nome, tão frágil, tão indefesa... Eu sabia que com um pouco mais de pressão, poderia quebrá-la. E eu ia fazer isso. Mas ela sangrou. Uma ferida pequena. Mas no momento em que o sangue brotou — doce, metálico, quente — foi como romper um selo. Uma fina linha vermelha desceu por sua pele, passou pelo rubor de suas curvas macias e desapareceu na sombra onde a luz da lua se acumulava entre seus seios. Meu olhar travou naquilo. Sob a minha palma, a pulsação dela batia frenética contra a minha pele. Cada batida parecia um suspiro. De novo. E de novo. Suave, mas implacável — cada uma sendo um pequeno som úmido provocando os limites do meu controle. Maldição, que doce tortura. Então, o cheiro dela me atingiu. Uma fragrância estranha e agressivamente doce invadiu meus sentidos. Perigosa. Sedutora. Quente... tão potente que fez meu sangue parar. Não se parecia com nada que eu conhecia. Parecia um veneno, envolto em açúcar, criado especificamente para mim. A cabeça dela foi forçada para trás, o pescoço formando uma linha frágil e arqueada. Um convite silencioso. Morda. Um rosnado primitivo e profundo explodiu no meu crânio. Meus caninos doíam com uma coceira aguda e enlouquecedora. Uma mistura violenta de sede de sangue e pura possessão queimou minha espinha. — Marque-a! Agora! Vincent rugiu nas profundezas da minha consciência, completamente cativado pelo cheiro. Ele a queria. Ou... Kiran, nós... Kiran, nós a queríamos. O instinto antigo e profundo por uma companheira predestinada havia despertado, e era como um incêndio. Meus instintos me puxavam, com força — implorando para que eu me aproximasse, respirasse seu cheiro mais fundo, a tomasse para mim, cobrisse tudo com a minha marca. — Kiran... — A voz dela tremia. Sua pele estava vermelha pela quase asfixia. Eu me afastei num solavanco, como se tivesse me queimado, soltando-a. Ela desabou, segurando a garganta, ofegando em busca de ar. Na seda branca de sua camisola, o sangue se espalhava rápido. Uma papoula cruel desabrochando na neve. O tom carmesim queimou meus olhos. No segundo seguinte, o vermelho se contorceu, girou, e de repente eu não estava mais vendo o vestido dela — eu estava vendo o sangue de Liam — escuro, frio — formando uma poça debaixo dele. A mesma cor. Mas Liam estava morto. Senti meu sangue esfriar e coagular nas veias. Tudo que senti nas pontas dos dedos foi uma dormência gelada. Para o inferno com o destino. Para o inferno com a Deusa da Lua. De pé diante dela, respirando aquele cheiro maldito e irresistível que fazia meus instintos gritarem, me senti perdido pela primeira vez na vida. Um prisioneiro do destino. Lembrei-me da ordem do meu avô. — Kiran — ele havia dito, calmo como uma pedra. — A dívida deve ser paga. O Conselho confirmou. Elara Sterling é sua companheira predestinada. A Deusa da Lua deu o seu sinal. Este casamento acaba com a rixa. — E quanto a Liam? — eu havia perguntado. — A morte dele simplesmente... desaparece? E Celeste. Meu amor. O pensamento no nome dela só fez meu maxilar trincar ainda mais. — A morte de Liam foi uma tragédia — ele havia respondido. — Mas os Sterling vão pagar. Prendê-los através do casamento é controle. É restituição. Quanto àquela garota, Celeste, ela não tem futuro como Luna. O Conselho não vai permitir. Se você escolhê-la, sabe quais serão as consequências. Eu sabia. Eles a apagariam. Eu entendi então. Aquilo não era um casamento. Era um sacrifício. O meu. Elara deve ter sentido a mudança. Seus cílios piscaram. Seus dedos se curvaram levemente no colo. Algo brilhou em seus olhos. Dor? Medo? Mais uma encenação. Os Sterling eram bons nisso. — Eu sei... — ela começou, os olhos ainda tingidos com aquele vermelho patético. — Este casamento não é o que você queria. Se quiser acabar com isso... — Podemos romper o vínculo. Romper o vínculo? Um jeito tão leviano de dizer isso. A atitude falsa e falsamente modesta dela me deu ainda mais nojo. — Você acha que eu acredito em você? — eu disse, agora agarrando seu pulso, invadindo seu espaço. — Desde o momento em que você fez seu pai se ajoelhar perante o Conselho para implorar por você, desde o momento em que se escondeu atrás da palavra "destino", você fez a sua escolha. Eu me inclinei para perto. — Você escolheu caminhar até aqui por cima do corpo do meu irmão. — Por favor — ela disse, com os olhos arregalados. — Você está me machucando. Meu lobo rosnou dentro de mim, andando de um lado para o outro, furioso e confuso, dividido entre o ódio e aquela atração maldita e inegável que eu não conseguia desligar. — Você vai implorar — eu disse a ela. — Não só esta noite. Todos os dias. Vou garantir que você se lembre exatamente o quanto eu te odeio. Eu a empurrei na cama. Ela se encolheu, levando as mãos à boca. As lágrimas agora caíam livremente. — Continue — eu zombei. — Chore. Deixa a encenação mais convincente. Eu rasguei a seda. Ela tremia debaixo de mim. Meu lobo ficou selvagem, feroz, fora de controle. — Eu vou tomá-la para mim — eu rosnei. — Já que você queria tanto. Eu a tomei. Com força. Sem piedade. O corpo dela estremeceu. Seus gritos me atingiram como fios desencapados, agudos e involuntários. Meu lobo se deliciou com a dominância, com a possessão. — Lembre-se disso — eu disse no ouvido dela, minha voz tremendo de fúria. — Eu nunca vou aceitá-la. Você não é nada para mim. Então, acabou. Levantei, me vesti, peguei minha jaqueta... e fui embora. A partir daquele dia, jurei que ela não receberia nada de mim. Nenhum respeito. Nenhuma ternura. Nem mesmo a cortesia básica que um marido deveria dar. Ela queria poder. O trono de Luna. Tudo bem. Eu a deixaria sentar nele — sozinha. Eu garantiria que ela me visse dar todo o meu carinho, todo o meu amor, para outra mulher. Eu a deixaria apodrecer de ciúmes e arrependimento todos os dias. A chuva estava mais forte agora contra o para-brisa. Gotas grandes e violentas. Cada uma borrando o mundo lá fora em um borrão cinza e preto. Vincent andava de um lado para o outro dentro de mim, suspirando, inquieto com uma frustração nascida de tudo e de nada. — Chegamos — meu motorista disse. Eu saí sem esperar por ela. Ela me seguiu. Em silêncio. Por que ela era sempre assim? Não importa o que eu jogasse nela, aquela máscara nunca quebrava. Distante. Vazia. E por que... o rosto dela parecia pálido? Pálido demais. Quase translúcido. Seus lábios não tinham cor. Então ela cambaleou. Meu peito apertou. Maldição. Instintos estúpidos. Eu os reprimi imediatamente. Capítulo 3 Ponto de Vista de Elara Entrar na casa da matilha era como pisar em uma tumba linda e congelada. — Olha só quem finalmente decidiu aparecer. — Uma voz cortou o ar como uma faca. Era Lilith, a irmã de Kiran, com um desprezo evidente. — Achamos que você estivesse ocupada demais para se lembrar da reunião de família. — Madame. — Eu a ignorei e acenei levemente para a mãe de Kiran, Madame Durga. — Onde está Kiran? — Seus olhos passaram por mim e então ela franziu a testa. Ela sequer olhou para mim direito. — Ele deve estar em uma ligação. Sua expressão suavizou um pouco, mas logo voltou a reclamar: "Sabendo que é uma reunião de família e ainda assim chegando atrasada. Eu realmente não entendo a educação que a sua família lhe deu. Isso é muita falta de educação!" — É o que eu estou dizendo! Ela não vale nem um fio de cabelo da Celeste! — Lilith intrometeu-se, pegando o celular. — Mãe, olha. A Celeste acabou de postar no Instagram. Ela voltou. Continua linda. Ela sim parece uma verdadeira Luna. Não como... bem, você sabe. Eu apenas abaixei o olhar, sem dizer uma palavra. Dois anos disso. Eu já estava acostumada com os insultos. Agora, eu nem me surpreendia mais. O jantar começou. A longa mesa de carvalho estava cheia com travessas de comidas requintadas. Fui para a cadeira mais distante de Kiran. Era a regra dele. Em público, éramos companheiros. Em particular, éramos estranhos. Ele odiava a minha proximidade. Odiava o meu cheiro. Odiava tudo em mim. Ele dizia que isso o lembrava de tudo que meu pai havia tirado dele. — Elara. Por que você está sentada aí? O avô de Kiran, Walter, franziu a testa, batendo sua bengala levemente. "Venha. Sente-se ao lado do seu companheiro." A sala ficou em silêncio. Eu olhei para Kiran. Seu olhar frio encontrou o meu — cheio de aviso e nojo. Eu entendi. — Avô — eu disse com cuidado. — Estou bem sentada bem aqui. — Isso simplesmente não vai dar! Não existe isso de um casal de companheiros sentar separado! Venha cá. Eu mordi o lábio. Quando Walter tomava uma decisão, era definitivo. Não adiantava discutir com ele. — ...Tudo bem — eu disse baixinho. Sob os olhares de todos, caminhei e me sentei ao lado de Kiran. Com o canto do olho, vi o maxilar de Kiran travar, os dentes cerrados como se pudesse me moer até virar pó. Eu não tinha escolha. Walter era a autoridade máxima ali. Ninguém o desafiava, nem mesmo Kiran. O cheiro de pinho e couro me envolveu. Minha loba se sentiu confortada. Meu corpo queria fugir. — Assim está melhor — Walter disse. — Elara, você parece muito magra. Vamos, coma mais. — Ele se virou para Kiran. — Garoto, seja um cavalheiro. Sirva sua companheira e garanta que o prato dela fique cheio. — Obrigada, Walter. — Eu concordei e peguei meu garfo e faca. Então, um pedaço de cordeiro assado caiu no meu prato com um baque suave — vindo de Kiran. O cheiro me atingiu — temperos fortes, o toque cru da carne. Uma onda de náusea tomou conta de mim, meu estômago revirando de forma violenta. A dor no meu pé da barriga aumentou. Pressionei uma mão ali, tentando respirar com calma. O cordeiro ficou intocado durante toda a refeição. — Por que você não está comendo? — Kiran exigiu, inclinando-se para perto. — Não estou com fome — respondi, tentando me levantar. Ele agarrou meu pulso, me empurrando de volta para a cadeira. — Sem fome? Que joguinho você está fazendo agora, Elara? Tentando me fazer parecer o vilão na frente do meu avô? — Eu não... — Não está? — Ele me puxou para perto. Uma das mãos apertou minha cintura, forçando-me contra ele. Ele ergueu meu queixo. Então ele me beijou. Com força. Com raiva. Seus dentes cortaram meu lábio, enchendo minha boca com o gosto de sangue. Não era um beijo. Era uma punição. Por um crime que, mais uma vez, eu não entendia qual era. Qual seria o motivo desta vez? O cordeiro? Ou outra coisa... Eu estava cansada demais para sequer pensar nisso. Eu me cansei disso. Dois anos tentando adivinhar as intenções dele sem parar, passando noites em claro analisando cada pensamento seu. Quanto ao motivo? Talvez fosse a criança que nunca teve a chance de dar uma olhada neste mundo antes de partir. Talvez fosse Celeste, a mulher que ele realmente amava, carregando o filho dele. Eu só estava... cansada. Finalmente. Eu o empurrei. Ele não me soltou. — Brincando de santa? Não é isso que você queria? — Kiran prendeu meu pulso acima da minha cabeça, me pressionando contra a parede. Ele abaixou a cabeça e cravou os dentes na minha clavícula. Doeu. No segundo seguinte, a outra mão dele escorregou por baixo da minha blusa. Seus dedos apertaram meu seio com força. Então, desceu centímetro por centímetro pela minha cintura... — Kiran, não...! — Eu mordi o lábio, lutando com todas as minhas forças para ficar quieta. Os criados estavam por toda parte. Minha loba soltou um ganido desesperado dentro de mim. As ondas de dormência subindo do fundo do meu corpo... eram boas. Boas até demais. E essa era a parte mais humilhante. Essa traição doía mais do que qualquer coisa. — Elara, você deveria se olhar no espelho. Ver o quão desesperada você parece agora! Ele parou de repente, com um sorriso frio e cruel. Não restava nenhum traço do homem que, segundos atrás, parecia consumido pelo desejo. Mantive a cabeça baixa. A vergonha que tomou conta de mim fez meu corpo inteiro tremer. Eu não conseguia parar. Ele não estava excitado. Ele estava me humilhando. — Elara, guarde esse seu teatrinho patético. Se fazendo de inocente? Isso já está ficando velho e... — Patético. Sua voz cortou o ar, fria e sem misericórdia. Então ele me empurrou e foi embora. Sem olhar para trás. A dor voltou, em uma nova onda. Fiquei sentada ali, em silêncio. Tudo o que eu conseguia ouvir eram os suspiros suaves e cheios de pena dos criados. Um desespero vazio começou a me devorar viva. Na viagem de volta, me encolhi contra a porta do carro, de olhos fechados, fingindo que não existia. Então o celular dele tocou. — Celeste? — ele atendeu na mesma hora. O tom dele... Eu nunca o tinha ouvido falar daquele jeito. Não era o aço frio que ele usava comigo. Nem o rosnado contido de sua raiva. Era suave. Cada sílaba era dita com cuidado. Como se respirar muito forte pudesse quebrar a pessoa do outro lado da linha. Minha respiração falhou. As cólicas na minha barriga pioraram, me corroendo com uma força renovada. Minha loba choramingou de pena dentro de mim. Eu deveria tomar outro analgésico? Isso faria a dor parar? Não. Eu sabia que não. A origem dessa dor não era uma doença. Era uma maldição, o preço por estar ligada de alma a outra pessoa contra a minha vontade. Isso vivia no meu sangue, pulsando a cada batida do coração, ressoando com cada gota da indiferença e crueldade dele. O antídoto que eu realmente precisava era de um momento de carinho dele. E isso parecia mais impossível do que suportar aquela dor sem fim. Eu não podia pedir por algo que nunca teria. A dor era profunda e totalmente silenciosa. Bem devagar, curvei os dedos que pressionavam minha barriga, cravando-os naquela dor fria e secreta. Como se eu pudesse segurar com as mãos a rachadura silenciosa no meu peito. A estrada cortava uma floresta escura, com árvores infinitas se fechando ao redor. — Encoste o carro — Kiran ordenou de repente. Os freios cantaram. — Saia — ele disse, com frieza. Para mim. — O quê? — sussurrei. — Celeste está me esperando. Você não ouviu? Ela está sangrando. O bebê pode estar em perigo. Preciso ir até ela. Que devoção. Que parceiro e futuro pai responsável. Só que não para mim. Para outra pessoa. Mas, Kiran, você sabia? Eu também carreguei seu filho. E essa criança morreu hoje, por causa da sua fria negligência. Se você soubesse, você se arrependeria? — Saia! Agora! A voz impaciente de Kiran estalou no meu ouvido. Nós estávamos nas montanhas. Olhei pela janela. Os postes de luz eram poucos e distantes entre si. O brilho fraco deles parecia o de velas ao vento, prontas para apagar. A floresta era densa e silenciosa. A escuridão sem fim parecia uma boca aberta esperando para me engolir por inteiro. — Kiran... por favor. Não falta muito para chegar. Você pode me levar para casa primeiro? Eu... Abaixei o olhar, encolhendo os dedos. "Eu não me sinto bem." Sim. Foi só isso. Eu não queria me tornar ainda mais uma piada. — Não tenho tempo para os seus joguinhos. Dê o seu próprio jeito de voltar. Algo dentro de mim se estilhaçou. Então veio a risada amarga. Como eu pude ter a esperança de que ele me escolheria em vez de Celeste? Para ele, nunca foi uma escolha, não é? — Alfa, acabei de falar com o médico. O sangramento da Srta. Rivers é leve, provavelmente causado por estresse. Ela só precisa de repouso. Não é grave — o motorista falou, tentando ajudar. Olhei para Kiran, com um olhar de súplica. Ele não se comoveu. — Saia. Não me faça repetir. A menos que queira ser jogada para fora. Que crueldade. Eu sorri, de um jeito amargo e contido. Capítulo 4 Ponto de Vista de Kiran Olhei pelo espelho retrovisor. Elara estava sentada no banco de trás, em silêncio, com as mãos entrelaçadas no colo. Ela olhava para a frente, com o olhar distante, como se já tivesse se transportado para algum lugar muito longe. Então ela não ia sair por conta própria. — Jogue-a para fora — ordenei ao motorista. O homem hesitou. — Senhor, esta estrada é perigosa... — Agora. Elara virou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os meus por meio segundo. Vazios. Aquele vazio era mais perturbador do que o medo. — Saia — eu disse. Ela não se moveu. Não olhei para ela de novo. Fixei meu olhar na escuridão encharcada de chuva além do para-brisa. — Celeste precisa de mim — acrescentei. — É bom você se lembrar do seu lugar. Seus lábios se entreabriram levemente. — Esta é uma estrada nas montanhas — ela disse baixinho. — Não há outros carros. Está chovendo. Me deixar aqui sozinha... Eu posso me machucar. Ou pior. Sua voz não tinha nenhum drama. Nenhuma acusação. Apenas a constatação de um fato. Um fato sobre sua fragilidade, sua necessidade de proteção. Isso quase me fez ceder. Quase. Mas o rosto de Liam surgiu na minha mente de novo. Frio. Acusador. Um lembrete que eu jamais poderia me dar ao luxo de esquecer. — Não é problema meu. Uma loba competente deveria ser capaz de cuidar de si mesma — respondi. Inclinei-me um pouco para a frente, falando com o motorista. — Abra a porta para ela. O homem encontrou meus olhos no espelho. Um choque passou por seu rosto, depois hesitação. Então ele saiu na chuva. A porta de trás se abriu. O ar frio invadiu o carro. A chuva respingou nos bancos de couro. No começo, Elara não se moveu. Ela ficou sentada ali, com os ombros tensos, enquanto a chuva umedecia seu cabelo e suas roupas finas. Então, devagar, ela desenrolou os dedos de onde agarravam o encosto de braço. Um dedo. Depois outro. Ela saiu. Ela mesma fechou a porta. O motorista voltou apressado para o seu lugar. Eu não olhei para trás. — Dirija — disparei. — Para o hospital. Rápido. O carro deu um solavanco para a frente, espirrando água para trás. Eu disse a mim mesmo para não pensar nela de pé sozinha na chuva. Eu disse a mim mesmo que não importava. Eu disse a mim mesmo que ela merecia coisa pior. Por um momento... Meu lobo, Vincent, ficou muito, muito quieto. **** Ponto de Vista de Elara No momento em que a porta do carro se fechou, a chuva me engoliu por inteiro. Não era uma chuva suave. Não era chuva de cinema. Era fria, selvagem e instantânea. A temperatura me agrediu, indo direto aos ossos, roubando meu fôlego. Minhas roupas colaram na pele em segundos, como pelos encharcados, pesados e inúteis. O mundo se resumiu à escuridão, à umidade e ao som do meu próprio coração batendo rápido demais. As lanternas traseiras do carro queimavam como dois buracos vermelhos no temporal. Dois pontinhos. Eles piscaram. Então sumiram em uma curva. Assim, do nada... Eu estava sozinha. Não aquele tipo de solidão tranquila. O tipo em que a escuridão te esmaga por todos os lados. O tipo em que a própria floresta parece estar te observando. Fiquei ali parada enquanto a chuva escorria pelo meu rosto, cabelo e pescoço, me encharcando até que não restasse mais nenhum calor para perder. Meu marido havia me deixado ali. Meu companheiro predestinado. Me largou como uma bagagem inconveniente. Porque outra mulher estava esperando por ele. Ela disse: "Kiran... estou com medo... estou sangrando..." Então, ele disse para ela não ter medo. Ele disse para ela esperar. Ele disse que estava a caminho. Cada palavra era como uma marca de fogo, uma após a outra, queimando meu peito até que meu coração ficasse em carne viva e exposto. E eu? Eu não valia um segundo de hesitação. Nenhum debate. Nenhuma discussão. Eu só precisava desaparecer. Imediatamente. Porque Celeste estava esperando. Nunca houve uma escolha entre mim e a mulher que ele amava. Não... Eu nem sequer era uma opção. Eu era a resposta errada, riscada antes mesmo de a pergunta terminar. A chuva se infiltrou mais fundo, em lugares que eu nem sabia que ainda conseguia sentir. Meu corpo começou a tremer, pequenos espasmos incontroláveis que faziam meus dentes baterem. Cada respiração arranhava meu peito, curta e superficial, e cada passo que eu tentava dar fazia meu pé da barriga se contrair de agonia. Minha loba se enrolou em uma bola apertada no fundo da minha consciência. Ela não rosnou. Ela não lutou. Ela apenas... ficou imóvel. Isso me assustou mais do que qualquer coisa. Um clarão de relâmpago rasgou o céu, iluminando brevemente a estrada sinuosa da montanha à frente — escorregadia, estreita, desaparecendo na escuridão. Eu não podia ficar ali. Eu morreria. Não de forma heroica. Não com algum propósito. Apenas de forma fria. Esquecida. Como um erro. Com os dedos rígidos, peguei meu celular. Abri o Uber. Nenhum carro disponível na sua região. Tentei de novo. O mesmo resultado. É claro. Encarei a tela por um longo momento, e então deixei meu braço cair sem forças. Isso deixava apenas uma opção. Caminhar. O primeiro passo enviou uma agonia nova e retorcida pelo meu abdômen. Não consegui ir muito longe antes de ter que me agachar, com a mão pressionando forte contra a dor, suportando a onda até que ela recuasse o suficiente para me deixar mover de novo. Eu não tinha escolha. Assim como eu não tive escolha há dois anos. — Elara, você é a companheira predestinada dele — meu pai havia dito, com os olhos injetados de sangue e a voz embargada de desespero. — É o único jeito. Para salvar a família. Para acabar com a rixa. Kiran Blackwood será um Alfa poderoso. Ele vai proteger você. Predestinada. Deveria ser uma ressonância profunda de almas. A bênção da Deusa da Lua. Uma vida. Um vínculo. Eu fui tola o suficiente para pensar que — talvez — algo mais pudesse crescer a partir disso. Se não amor, então respeito. Pelo menos paz. Eu aprendi o quanto estava errada, e bem rápido. Minha última esperança havia morrido em uma cama de hospital hoje. Esta noite enterrou o resto. Quando cheguei aos portões da propriedade, eu estava cambaleando. Passei pela entrada flutuando como um fantasma. Subi as escadas. Entrei no quarto com a placa de "Sra. Blackwood". Tirei as roupas molhadas, com os dedos dormentes, movendo-me devagar como se estivesse trocando uma pele que nunca me serviu de verdade. Me olhei no espelho... Pálida como um fantasma, Com os olhos fundos, Os lábios arroxeados. Como uma boneca com a qual brincaram, quebraram e descartaram. Como um cadáver. Minhas têmporas latejavam e minha mente, em detalhes cruéis e vívidos, pintou uma cena: ele invadindo um quarto de hospital, com o rosto marcado pelo pânico, acolhendo-a em seus braços. Murmurando palavras suaves de conforto. Talvez dando um beijo fervoroso em sua testa. Ele ficaria a noite toda, segurando a mão dela até que ela dormisse. O cheiro dele a envolveria. O calor dele a protegeria. Uma dor súbita e sufocante rasgou o meu peito. Era pior do que a dor depois do procedimento. Pior do que qualquer machucado físico. Foi arrancada diretamente do núcleo da minha alma, como se algo essencial estivesse sendo extirpado de mim, à força e com brutalidade. A coisa que eu estupidamente chamava de esperança. Ou o vínculo. No fundo da minha mente, minha loba finalmente falou. Não foi um rosnado de raiva. Não foi um choro de tristeza. Mas um uivo baixo e antigo — longo e pesado, cheio de uma dor sem fim e de uma compreensão definitiva. Um som que parecia surgir de uma selva primordial. Ele vibrou pelos meus ossos e sangue, despedaçando a última casca frágil de autoengano à qual eu me agarrava, e se cristalizou em uma única frase, fria, afiada e insuportavelmente clara — ecoando na minha mente: Chega. De verdade, já chega. Esse casamento patético — chamado de destino, atado por supostas dívidas, mergulhado em ódio e negligência, essa tumba dourada que sugou todo o meu calor e me deixou como um cadáver ambulante... Era a hora. A hora de eu mandar tudo pelos ares. Respirei fundo e então... Mergulhei na parte mais profunda da minha linhagem, no antigo legado dos Sterling — e despertei a sua parte mais velha, definitiva e impiedosa. A parte que poderia queimar a própria alma. Não precisava de nenhum feitiço. Nenhum ritual. Apenas a mais pura e absoluta vontade de destruir... E a disposição de sacrificar uma parte de mim mesma no processo. Minha consciência rasgou a noite fria e chuvosa, ignorando brutalmente toda a distância e as barreiras, e se fixou à força naquele cuja alma ainda estava tênue, nojenta e dolorosamente ligada à minha através daquele fio frágil e desgastado... Kiran Blackwood. Com a essência da minha loba, com todo o meu orgulho e dor restantes, com um sentimento tecido de ódio e alívio, forjei uma vontade — intangível, mas absoluta, um voto e uma maldição — e a marquei diretamente na alma dele: — Eu, Elara Sterling... Então, palavra por palavra, com uma clareza impiedosa, eu declarei: — ...rejeito você como meu companheiro.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"
Ana hipotecou sua casa para o casamento do filho, William. 💔 Mas um imprevisto a fez perder tudo! 😭 Irene, a esposa de William, a expulsou sem piedade. 🚪 Desesperada, Ana encontra Rebeca, uma alma gentil que vê sua bondade. 🙏 Rebeca, com um plano secreto, organiza um encontro às cegas entre Ana e seu pai, Leonardo. 💖 O que acontece depois? Um casamento inesperado! 💍 E a surpresa maior? Leonardo é um magnata e Rebeca, sua filha perdida! 🤯 Juntos, eles enfrentam a família de Irene e o ex-marido. 💪 Ana finalmente encontra a felicidade que merece! ✨
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
Flagrei meu marido, Gabriel, com a sua ex-namorada no escritório e pedi o divórcio. Mal sabia eu que a única condição que ele oferecia era dormir com ele mais uma vez... ... Isla estava no quarto, o celular pressionado contra a orelha. — Gabriel, por favor, atenda. Seus dedos brincavam com a barra de sua camisola enquanto esperava que o marido atendesse o telefone. Mas ele não atendeu. Ela começou a andar de um lado para o outro pelo quarto amplo e lindamente mobiliado. Não esperava um milagre. Queria apenas uma coisa: que o marido estivesse presente no dia seguinte, no aniversário de casamento de seus pais. — Beep... Deixe seu recado depois do sinal. Nenhuma surpresa. Gabriel nunca atendia. Isla olhou para a tela e sorriu amargo: bilionário, ocupado o tempo todo; nos dois anos de casamento ela o vira menos que a própria secretária. Mas amanhã era a data dos pais, e eles tinham deixado claro: — Gabriel tem de vir. Ela franziu o cenho. Era sempre assim: casamento só no papel, nem quarto compartilhavam. Casara-se por causa do escândalo. Drogada numa festa, acordara no quarto de Gabriel; fotógrafos os flagraram de madrugada virando manchete. Para proteger a reputação impecável dos Wyndham, o avô Alfred obrigara o neto a casar. Isla aceitara, afinal sempre o amara em silêncio. Ele só a via como amiga. Ligou de novo. Desta vez atenderam, mas não era ele. — Alô, desculpe, ele não pode falar agora. Aviso que ligou. Click. A ligação terminou. Isla estava de boca aberta, ainda tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer. Ela reconheceu aquela voz perfeitamente. Era a de Delphine. — Quando ela voltou? — Murmurou. Agora ela entendeu. Ele não atendia suas ligações porque estava com Delphine. Delphine era seu amor de infância. Mas ela o havia deixado há três anos. Embora Isla soubesse que o coração de Gabriel pertencia a outra pessoa: Delphine Winthrope, a glamorosa supermodelo que cresceu ao lado dele. Gabriel foi claro. Ele disse que nunca poderia amá-la e que seu coração pertencia a Delphine. Mas prometeu apoiá-la de todas as maneiras possíveis. A única coisa a que ela se apegava era a esperança. A esperança das palavras gentis de sua mãe. Elas ecoavam frequentemente em sua mente: "As coisas vão melhorar, querida. Seja paciente com ele." Essa esperança era a única razão pela qual ela havia suportado esse casamento por dois longos anos. Ela desistiu de ligar para ele e colocou o telefone na mesa de cabeceira. Subiu na cama, puxou as cobertas e se abraçou. Justamente quando estava prestes a desligar o telefone, a tela acendeu. Uma videochamada de um número desconhecido. Ela não sabia quem era. Seu coração disparou. Rapidamente, sentou-se encostada na cabeceira da cama. Seus dedos alisaram seus longos cabelos loiros. Com a mão trêmula, ela deslizou o botão verde para aceitar a ligação. O som que a saudou a deixou sem fôlego. Gemidos e suspiros. O som de pele batendo contra pele. O coração de Isla pareceu parar por alguns segundos. Ela piscou, incapaz de respirar, antes que seus olhos trêmulos e marejados se concentrassem na tela. Não era um vídeo qualquer. Era um vídeo de Delphine com um homem que parecia Gabriel, seu marido. O corpo dele se movia sobre o de Delphine enquanto ele segurava as pernas dela contra o peito, seus quadris impulsionando-se contra ela num ritmo que fazia o estômago de Isla revirar de dor. — Mais rápido, Gabby. Acerte aquele ponto que me deixa louca. — Gemeu Delphine. O homem obedeceu, seu corpo dando a ela exatamente o que ela queria. Isla não conseguia mais assistir. Com um grito, ela jogou o telefone para o outro lado do quarto. Ele caiu com um baque surdo, mas o som dos gemidos deles ainda ecoava em sua cabeça. Seus soluços irromperam, incontroláveis. Ela abraçou os joelhos contra o peito, balançando-se enquanto as lágrimas encharcavam seu rosto. Se soubesse que esse casamento era irremediável, jamais teria concordado com ele. Havia sacrificado dois anos de sua vida, seu coração, seu orgulho, apenas para se agarrar a algo que já estava quebrado. E agora ela sabia que, não importa o que fizesse, Gabriel não tinha interesse em consertar nada. Delphine a havia ligado porque queria que ela visse isso com os próprios olhos. Na noite seguinte, todos os que haviam se reunido na casa de seus pais pareciam tão felizes. O jardim do elegante duplex dos Ainsworth estava iluminado por luzes suaves que atravessavam as árvores, lançando um brilho dourado na noite. Todas as mesas estavam decoradas com flores, e uma música leve tocava ao fundo. Os convidados riam. Pareciam todos felizes. Alguns casais davam as mãos, e o tilintar das taças preenchia o ar. Era o trigésimo aniversário de casamento dos pais de Isla, e toda a família havia se reunido para celebrar com eles. Presentes caros e calorosas felicitações eram oferecidos aos seus pais. Isla estava sentada quietamente em uma mesa de canto. Seu sorriso era tênue, e o coração, distante. Mal percebia o que acontecia ao redor. Sua mente ainda repetia os sons horríveis que ouvira na noite anterior. Por mais que tentasse afastar aquilo, a lembrança voltava sempre — e partia seu coração. — Querida. — Disse sua mãe, Diana, com suavidade, aproximando-se dela. — Por que está sentada aqui sozinha? Onde está seu marido e a família dele? Eles não disseram que viriam? Isla rapidamente enxugou o canto dos olhos e se levantou, forçando um sorriso nos lábios. — Claro que eles virão, mamãe. Gabriel virá mais tarde. Acho que... acho que ele teve algum trabalho no escritório. A mãe lançou-lhe um olhar demorado, cheio de compreensão. — Hoje é domingo, Isla. Não tente defendê-lo. Eu posso ver que você está magoada. Isla abriu a boca para responder, para defendê-lo mais uma vez, mas as palavras não saíram. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um alvoroço repentino começou perto da entrada. Os convidados se viraram, murmurando, enquanto o som de vozes e passos se espalhava pelo jardim. Os olhos de Isla seguiram o barulho. Alfred Wyndham havia chegado. E não estava sozinho. Estava com sua família. E caminhando ao lado deles, alto e imponente, estava Gabriel. A família avançava com elegância e porte. Praticamente eram donos de quase toda Richbouph, todos sabiam disso. O rosto de Isla se iluminou. Ela murmurou baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa: — Viu, mamãe? Eu disse que eles viriam. Gabriel caminhou para a frente com sua habitual calma e sofisticação, o tipo de atitude que sempre atraía olhares. O coração de Isla disparou dentro do seu peito. Ela não sabia o que ele estava prestes a fazer. E então ele surpreendeu a todos. Suas mãos envolveram firmemente a cintura dela, puxando-a para perto. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele foram pressionados contra os dela. Ele a beijou profundamente, intensamente, ali mesmo, diante de todos. Um murmúrio de espanto percorreu a multidão. Até Isla congelou, os olhos arregalados. Ela o amava havia anos, mas também sabia a verdade: aquele beijo não era amor. Não era destinado ao seu coração. Era apenas uma encenação. Gabriel estava representando seu papel mais uma vez: o de marido perfeito diante da família e dos amigos. Ainda assim, Diana, sua mãe, parecia radiante. Um sorriso iluminou seu rosto, os olhos cheios de alívio. Tudo o que ela sempre quisera era a felicidade da filha. Para ela, aquele beijo significava esperança. — Feliz aniversário de casamento, Diana, Charles. — Disse Alfred Wyndham, com um sorriso caloroso, ao se aproximar. O restante da família Wyndham o seguiu, cumprimentando os pais de Isla e desejando-lhes muitos mais anos juntos. Embora a celebração fosse para os Ainsworth, a atenção de todos permanecia fixa em Isla e Gabriel. O beijo deles durou mais do que qualquer um esperava. Isla finalmente se afastou para recuperar o fôlego, o rosto corado. Saiu rapidamente dos braços dele, sentindo o peso de dezenas de olhares sobre si. Alisou o vestido e caminhou em silêncio até Alfred Wyndham, seu avô por casamento, o homem mais rico e poderoso de Richbouph. Todos na cidade o respeitavam… e o temiam. — Vovô. — Ela disse suavemente. O velho se inclinou e beijou o topo de sua cabeça. Alfred conhecia suas lutas. Foi ele quem forçou Gabriel a se casar com ela, apesar da obsessão do neto por Delphine. Alfred sempre deixara claro que nunca aprovaria Delphine. Ele havia escolhido Isla para Gabriel e aquilo era definitivo. Enquanto os convidados voltavam às risadas e conversas, Gabriel apresentou um presente extravagante aos sogros.Um carro de luxo novíssimo brilhava sob as luzes. Diana levou as mãos à boca, emocionada. Charles, embora sorrisse, parecia desconfortável. — Gabriel. — Disse ele com cautela — Isso é demais. Você não precisava ter nos dado algo tão caro. Gabriel abriu a boca para responder, mas Alfred interveio com naturalidade. — Vocês merecem, Charles. E minha nora merece ainda mais. Aqui, um pequeno presente da família Wyndham. Ele entregou um cheque a Diana. Os olhos dela se arregalaram; ela olhou para o número escrito ali como se não acreditasse no que via. A música continuava tocando, e o riso ainda enchia o jardim. Gabriel se voltou para Isla e estendeu a mão. — Dance comigo. O estômago dela se revirou, mas Isla assentiu educadamente e colocou a mão na dele. Os dois se moveram para a pista de dança, passos suaves, perfeitamente sincronizados. Aos olhos dos outros, pareciam um casal profundamente apaixonado. Mas, por dentro, Isla estava despedaçada. Cada giro, cada toque das mãos dele em sua cintura, apenas a fazia lembrar da noite anterior, da videochamada. Ela estava cansada daquela performance, desse fingimento sem fim. Amava-o de verdade, mas ele não lhe dava nada em troca. — Desculpe por não atender suas ligações. — Disse Gabriel de repente, os lábios próximos ao ouvido dela enquanto dançavam. — Eu estava ocupado com o trabalho. Espero que entenda. O peito de Isla apertou. Ela ergueu lentamente o rosto e fitou os olhos verdes dele. — Eu sei que você estava com Delphine. Recebi a mensagem. E entendi muito bem. As palavras o atingiram como uma pedra. Ele parou no meio do passo, os olhos arregalados. Sem dizer nada, segurou a mão dela e a puxou para fora do jardim, passando pelos convidados, até o quarto dela no andar de cima. Fechou a porta com força. — Repita o que acabou de dizer. — Exigiu, o olhar faiscando. — Eu quis dizer cada palavra. — Respondeu Isla, a voz trêmula. — Não precisa mentir. Eu sei de tudo. Você estava com Delphine ontem à noite. Então, por favor, não venha falar de trabalho. Gabriel passou a mão pelos cabelos sedosos, andando de um lado para o outro. O maxilar contraído. — Vamos esclarecer uma coisa. Você sabia sobre mim e Delphine. Então, qual é o problema agora? A voz dele estava um pouco alta, mas ele continuou: — Você sabia desde o início o que esse casamento significava. Então pare de agir como uma criança e tente ser razoável pela primeira vez. As lágrimas brilharam nos olhos dela. — Já não importa mais. Mas você tem razão em uma coisa: eu estou sendo infantil. Acho que é hora de encarar a realidade. Ele parou de andar. A voz agora saiu mais baixa, contida. — Olha, me desculpe. Mas nada muda o fato de que eu estava com Delphine, e você sabia disso quando se casou comigo. O que eu preciso de você é simples: continuemos representando nossos papéis, Isla. Não vamos decepcionar meu avô nem seus pais. Eles não precisam saber o que acontece entre nós em particular. Tente entender. O peito dela subia e descia em desespero. — Eu não consigo mais viver assim. Fingindo, escondendo, chorando todas as noites. Eu não aguento mais. Gabriel se aproximou, os lábios roçando seu pescoço, as mãos deslizando pelo corpo dela. Mas quando seus lábios chegaram perto dos dela, Isla o empurrou com as mãos trêmulas. — Não. — Sua voz se quebrou. — Chega. Eu não vou mais fazer isso com você. Eu quero o divórcio. Aquelas palavras o atingiram com força. — Você está magoada. É normal sentir isso. Mas você sabe que isso não vai acontecer. — Respondeu ele friamente, sem sequer vacilar. Ela o encarou, as lágrimas agora caindo livremente. — Estou falando sério, Gabriel. Eu não posso mais continuar assim. O maxilar dele se contraiu; os punhos cerraram-se. Ele estava perdendo o controle. — E pela última vez: não vai haver divórcio. Sugiro que se recomponha e pare com esse comportamento infantil. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes intensos. — Eu te dei meu nome, minha riqueza, proteção, tudo o que um homem deveria dar à sua esposa. Abriu os braços, a voz carregada de frustração. — Você era minha melhor amiga antes de tudo isso, Isla. Por que não consegue aceitar o que temos? Os ombros dela tremiam. — Porque o que temos não é real. É só sexo quando precisamos convencer o seu avô. Mas não há amor, Gabriel. — Ela hesitou, depois completou, com os olhos presos aos dele: — Eu te amo, Gabby. A expressão dele mudou num instante. A voz endureceu. — Não me chame assim. Você não tem esse direito. Só uma… — Ele parou, respirou fundo. — Apenas… não me chame assim. As palavras o cortaram mais fundo do que qualquer lâmina. Isla assentiu lentamente, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. Sua voz saiu em um sussurro: — Está bem. Você não me ama. E nunca vai amar. Eu já entendi. Amanhã de manhã, você verá os papéis do divórcio na sua mesa. Por favor… apenas assine. Eu terminei com isso. Adeus, Gabriel. Ela caminhou até a porta, o corpo trêmulo, mas os passos firmes. Com um último olhar para ele, saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Gabriel ficou ali, sozinho, atordoado. O eco das palavras dela preenchendo o silêncio. A celebração havia terminado. Os convidados já tinham ido embora. A casa dos Ainsworth estava em silêncio agora. Gabriel e Isla também haviam voltado para casa. Como sempre, entraram em quartos separados. Nenhuma palavra foi dita. Apenas silêncio. Mas Isla não dormiu. Em vez disso, ela puxou duas malas grandes do closet e começou a arrumar suas coisas. Dobrava roupas, guardava sapatos e cada pequeno objeto que lhe pertencia. Naquela noite, não restavam lágrimas. Apenas determinação. Aos vinte e cinco anos, ela disse a si mesma que sua vida não havia acabado. Ela ainda tinha sonhos, metas, e um futuro inteiro pela frente. Não podia continuar desperdiçando-se em um casamento sem amor, tentando agradar a todos enquanto destruía a si mesma. Na manhã seguinte, Gabriel se preparou para o trabalho como fazia todos os dias. Sua rotina nunca mudou. Antes de sair, foi até a cozinha para buscar a única coisa que jamais deixava pra trás: o consomê de frango que Isla fazia. Ele havia se tornado viciado naquele sabor. Não importava o que estivesse acontecendo entre eles, ele sempre esperava ansiosamente por aquela sopa. Quando entrou, a governanta, Magdalene, o cumprimentou com cortesia. — Bom dia, senhor Wyndham. Sua sopa já está pronta. Ela serviu rapidamente e saiu. Gabriel sentou-se no banco alto e começou a tomar o caldo quente e translúcido. Era tão reconfortante quanto sempre fora. Ele não percebeu que, em outro lugar, sua esposa já estava traçando um novo caminho para a própria vida. Isla havia se levantado muito cedo. Ao amanhecer, já estava no escritório do advogado. Sem hesitar, assinou os papéis do divórcio. Estava pronta para deixar o marido. Quando voltou ao carro, o telefone tocou. Era sua melhor amiga, Betsy. — Recebi sua mensagem. — Disse Betsy rapidamente. — Onde você está? — Acabei de sair do escritório do advogado. — Respondeu Isla, em voz baixa. — Estou indo para a sua casa agora. — Ok. Te vejo em breve. — Finalmente! Você fez a coisa certa! — Exclamou Betsy, aliviada, ao abrir a porta e puxar Isla para um abraço apertado. Isla forçou um pequeno sorriso enquanto puxava a mala para dentro. Largou-a perto do sofá e se sentou, sentindo um cansaço repentino. — Vou voltar para Teriporto. — Disse após um momento. — Aquele espaço ainda está disponível? Betsy inclinou a cabeça, franzindo a testa. Ela sabia exatamente do que Isla estava falando. Anos atrás, quando estavam na faculdade, as duas tentaram abrir juntas uma pequena joalheria em Teriporto. Usaram um apartamento de dois quartos, transformando um deles em oficina. Mas o sonho acabou rápido, o dinheiro acabou primeiro. — Sim, ainda está lá. — Respondeu Betsy. — Tudo continua do mesmo jeito. Mas me diga, Isla, o que pretende fazer naquele lugar velho? — Já te disse. Quero abrir minha própria empresa. Algo que me ocupe. Algo que seja meu. Betsy se recostou na cadeira, observando a amiga. — Você quer mesmo deixar Carminton? Está levando isso a sério? — Eu preciso de um novo começo. — Afirmou Isla com firmeza. — E Teriporto é o melhor lugar para isso. Betsy suspirou. — Você contou aos seus pais? — Não. E nem pretendo. Eles nunca aprovariam. Mas desta vez, eu não preciso da aprovação deles. Preciso fazer isso por mim. — Eu te apoio, Isla. Mas eles deveriam saber. E não se esqueça: você vai precisar de dinheiro. Foi por isso que desistimos da outra vez porque não tínhamos como sustentar o negócio. — Eu tenho dinheiro agora. — Disse Isla calmamente, os olhos firmes. — Nunca toquei na mesada que Gabriel me dava. Ele me deu tudo... menos o coração dele. Betsy arqueou as sobrancelhas. — Uau. Então você planejou tudo. — Sim. — Respondeu Isla, levantando-se devagar. — Vou embora hoje à noite. Meu voo já está marcado. Ela puxou a mala em direção ao quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Betsy a observou em silêncio, o peito apertado de preocupação. Ela sabia que Isla era corajosa mas também sabia que estava ferida. Teriporto não era uma cidade fácil. A vida lá era cara, dura. Sem o dinheiro de Gabriel, sem o apoio da família… como Isla sobreviveria? Ao anoitecer, Isla chegou em segurança a Teriporto, a "Cidade da Vida". O ar ali era diferente, cheio de energia e barulho. Ela se sentia assustada, mas determinada. Pegou um táxi direto para o antigo apartamento onde ela e Betsy moraram. A casa térrea de dois quartos ainda estava de pé, embora coberta de poeira. O portão rangeu alto quando ela o abriu. Ali, anos atrás, as duas sonharam em construir um império de joias. Agora, Isla estava decidida a transformar esse sonho em realidade. Ela entrou, levando a mala, e começou a limpar as superfícies empoeiradas. Não era muito, mas era dela. De volta a Carminton, Gabriel estava mergulhado no trabalho. As reuniões se arrastaram do início da manhã até a noite. A agenda era tão cheia que ele mal tinha tempo de respirar. Normalmente, Isla quase nunca ligava, mas de repente ele sentia falta dessas ligações, e o silêncio dela o incomodava. Quando finalmente olhou para o Rolex dourado no pulso, já passava das oito da noite. E ainda nenhuma chamada. Algo dentro dele se agitou, uma sensação que não sabia nomear. Enquanto começava a arrumar suas coisas, seus olhos pousaram em uma pasta fina que estava cuidadosamente sobre sua mesa polida. Na capa, em letras garrafais, lia-se: "Muito Confidencial". Curioso, ele a abriu. Dentro havia um único conjunto de papéis. Quando seus olhos pousaram na primeira linha, sua garganta se apertou. Um Acordo de Divórcio. Gabriel congelou, o peso das palavras oprimindo seu peito.
Leila amava Edgar, mas durante o casamento, ela vivia ameaçada de divórcio. Pela 99º vez que esse tipo de farsa se repetiu, ela descobriu as cartas de amor escondidas: ele a amava, mas adorava vê-la sofrer e insistir. Cansada, Leila aceitou o divórcio e partiu. Edgar se arrependeu e tentou reconquistá-la, mas era tarde. Leila recomeçou em Paris, ao lado de Raul, que sempre a apoiou. Enquanto ela seguia em frente, Edgar ficou para trás, cheio de remorso.
— Ah... Calma... Eu não aguento tudo isso... — Meus olhos se arregalaram no instante em que o Alfa me invadiu com força, preenchendo meu corpo sem piedade. — Boa garota... Me aperta mais... Você consegue... — ele arfou, enquanto o lado selvagem dele me mantinha completamente presa por dentro. Todo mundo dizia que o Ryker, o Alfa mais poderoso e temido de todos, tinha enlouquecido por querer transformar uma humana inútil como eu na Luna dele. Mas, no fim, ninguém fazia ideia de que a única coisa ocupando meus pensamentos era o medo de ele descobrir o segredo que eu escondia… (Ponto de Vista de Kennedy) — Sua descarada! Como você pôde dar em cima do irmão da família que te criou? — Rayna berrou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele. Depois da morte dos meus pais, fui acolhida pela melhor amiga da minha mãe, mesmo sendo apenas humana. Desde então, Jeremiah e eu nos tornamos inseparáveis, mas tudo começou a mudar quando ele ficou prestes a se unir oficialmente à companheira dele. O problema foi que a futura Luna, Rayna, acabou acreditando que eu estava tentando seduzir o Jeremiah. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo... Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo. — Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas. Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…" — Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando. — Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…" — Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês. Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou. — Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim. — Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé. Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa. — Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto. Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico. — Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando. — Por favor, a gente devia conversar. No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta. — Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado. — Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo. Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada. — Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir. — Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela. "Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos. — Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando. — Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — OTommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada… Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar. Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila. — Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada. — Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui. Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado. — Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada. — Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer. — Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20. Assenti. — Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos. Ela acenou em concordância. — Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos? — O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais. — Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos. — Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim. — Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona. — Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio. — Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo. — "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar. — Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez. "Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança. — Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso. — Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro? Diante da pergunta, meus olhos se arregalaram. — Primeiro o quê? — Continuei desviando, certa de que eles conversavam entre si, embora aquilo não fosse assunto que a gente comentasse em voz alta como grupo. — Isso! Eu sabia! Com quem foi o seu primeiro beijo? — Mas… O quê? — Não se faz de burra. Qualquer mulher viva e não marcada seria uma completa idiota por não aproveitar o que eles oferecem. Fora que você é linda, e eles com certeza perceberam. Com quem… Foi… O… Seu… Primeiro... Beijo? — Jason. — Eu cobri o rosto, sem saber ao certo por que aquilo me deixava tão envergonhada de admitir, já que tudo tinha sido bom. Ele tinha sido incrivelmente doce comigo e, como se não bastasse, todo mundo também tinha estado presente naquela ocasião. — Mas foi só aquilo, durante um jogo de verdade ou desafio com garrafa. Nada que a gente realmente converse depois. — E o Tommy? Ele não parece do tipo que para em beijo. Mas também não parece que você dormiu com ele. — Balancei a cabeça, negando, e ela abriu um sorriso malicioso. — Sim! Até onde você deixou ir? — O que você é, uma leitora de mentes? — Disse, enquanto ela continuava me encarando esperando a resposta. Eu imaginei que fosse o sangue Alfa, porque ela demonstrava estar acostumada a obter o que queria, então, no fim, eu finalmente cedi. — O suficiente. Olha, a gente não fala sobre essas coisas, e eu não faço ideia do que eles já comentaram com o Jer. Eu não quero que ele fique estranho comigo se não souber e descobrir depois, nem que acabe brigando com eles, porque ele é superprotetor, caso você não tenha notado. — Encarei ela de novo e, em resposta, ela apenas levantou uma sobrancelha enquanto esperava, e a paciência dela se tornou um completo inferno. — Bom. Foi durante um jogo, por sete minutos, mas não significou nada... — Olhei para o meu colo, torcendo os dedos. — Ah, mas é claro que significou! Olha a sua cara! Quantas vezes ele te fez gozar? Ele parece ser do tipo que não se contenta com uma só. E foram os primeiros da sua vida? — Sério, isso é muito estranho. — Eu esfreguei o rosto com as mãos e, em seguida, ela me empurrou só de brincadeira, mas ainda assim quase me jogou para fora da cama. — Quantas vezes? — O sorriso dela era contagiante, de tal forma que eu conseguia ver por que Jeremiah a amaria mesmo sem o vínculo. — Duas... — Em sete minutos? Usando o quê? — Só a mão dele. — Dei de ombros, percebendo que seria inútil continuar segurando informações, e também era bom ter uma garota com quem conversar. — Também foi a primeira vez que veio de alguém que não fosse eu mesma. E sim, eu transei com o Ben. Eu não queria entregar minha virgindade para qualquer um e queria ter alguma noção de como tudo funcionava, e ele foi super gentil e paciente comigo. Ele não é exatamente pequeno. E, de novo, não sei se o Jer sabe. Provavelmente sabe, mas não é algo que eu costumo comentar. — Que delícia! — Ela esfregou as mãos. — Não chega nem perto do que eu acabei de ver lá emb aixo. Ele por acaso esqueceu que tem mais gente morando aqui, ou isso é alguma coisa do vínculo de companheiro, como se vocês ficassem com tesão do nada e precisassem foder onde estiverem? Eu estava meio que brincando, mas foi a vez dela de corar. — Talvez seja um pouco dos dois. Eu não sabia que você morava aqui e, como os pais dele ainda estão na reunião e só voltam de manhã, eu não vi problema. Além disso, é meio difícil manter as mãos longe quando ele está por perto, você já viu ele... Você realmente fala com ele todos os dias? — Ela ainda estava corada, embora houvesse descrença na voz. — Sim, nós conversamos desde que eu era pequena, sempre trocando mensagem antes da escola e antes de dormir... Agora estudamos juntos e eu treino com eles, por isso passo praticamente todos os dias com quase todos os garotos. — Toc, toc! Está seguro? Eu gostaria de poder ter filhos algum dia, Ken. — Minha porta se abriu uma fresta e meu melhor amigo apareceu ali, embora esperasse meu sinal para entrar. — Estamos bem, Jer. A gente só precisou preencher algumas lacunas que você deixou porque é um idiota e deixou o seu pau pensar por você. — Ele soltou uma risada soprada e entrou com duas canecas, as colocou na mesa lateral e subiu na minha cama atrás da Rayna. — Trouxe chá, achei que isso podia ajudar um pouco, e como amanhã acordamos cedo, todo mundo precisa descansar. Dava para perceber que ele também não resistia em tocá-la o tempo todo, e era encantador acompanhar o momento em que puxou a Rayna para perto, com o cabelo escuro dela emoldurando o rosto em formato de coração e contrastando com o cabelo loiro dele, até ela se aninhar no abraço. — O que vão fazer amanhã? — Perguntei, confusa, pegando a xícara de chá. Era uma mistura que a curandeira tinha feito quando eu contei que ainda estava tendo pesadelos e nada mais estava funcionando. — Nós vamos viajar para a minha alcateia para o Jeremiah conhecer meu irmão. Ele é o Alfa, mas estava lidando com outro assunto urgente, então meu pai e eu fomos à reunião no lugar dele. — Eu fico feliz que tenha ido. — Ele roçou o nariz no pescoço dela e eu ouvi o lobo dele ronronar. — Ok, por favor não transem no meu quarto. Vocês têm o de vocês para essas atividades extracurriculares. Jer… — Bati na perna dele. — Obrigada pelo chá, eu devo ficar bem. Os garotos já foram? Nem me toquei de dar tchau. — Tentei apressar os dois. Por mais fofo que fosse, eu sabia que novos companheiros passavam de carinho leve para uma foda em questão de minutos, e isso não era algo que eu queria ver, mesmo que meu melhor amigo e a nova companheira dele fossem absurdamente atraentes. — Não, estão todos na sala de mídia. A gente achou que seria mais fácil todo mundo sair daqui amanhã cedo. — Por qual motivo vocês todos têm que ir? — Eu ainda estava aprendendo as nuances da política da alcateia, embora só de imaginar todos eles indo embora meu estômago afundasse. — Todo mundo vai, e você também. Sempre que um Alfa precisa viajar por mais do que alguns dias, a equipe dele costuma ir junto, contanto que tenha alguém para ficar no comando da alcateia, e o Beta Daniel está aqui, sem falar que os meus pais chegam amanhã. — E o que isso tem a ver comigo? — Eu tenho certeza de que a Rayna gostaria de ter outra mulher junto. Viajar só com homens o tempo todo não deve ser divertido. Além disso, você é uma das minhas guerreiras e minha melhor amiga… Eu gostaria que você estivesse comigo quando eu tiver que conhecer o irmão da Rayna. — Isso foi só um jeito educado de confessar que você morre de medo do meu irmão? — Rayna riu dele. — Ah… Sim, Luna! — Ele rosnou no ouvido dela. — Sem sarcasmo. Ela sempre serve de barreira quando tem testosterona demais por perto. A Kennedy já me acompanhou em vários encontros, é excelente em conversinha e tem memória incrível, o que facilita tudo. Não ajuda pouco o fato de ela ser linda e quase sempre atrair atenção de imediato. E, como seu irmão comanda o maior território de alcateia, além de ser um dos Alfas mais perigosos, e eu ainda vou levar a irmã dele embora… Toda ajuda é necessária. Eu ignorei o comentário irônico sobre distração e perguntei: — Espera, de qual alcateia você é? — Da Lua Sombria. — Minhas sobrancelhas se ergueram, já que até eu conhecia a fama deles. Eu não lembrava o nome do Alfa, mas sabia, pelas histórias, que ele era impiedoso e que tomava alcateias fracas enquanto eliminava Alfas com a mesma naturalidade com que eu ia à escola entregar tarefas. — Relaxa, ele não é tão assustador assim. — Talvez para você, porque ele te ama, mas para o resto do mundo ele é intimidador. Se fosse o contrário, e alguém viesse me dizer que era companheiro da Kennedy e que ela estava arrumando a mala para ir embora hoje, eu provavelmente tentaria enfiar a porrada na pessoa. Com vínculo ou sem. Ri com a Rayna, só que interrompi no meio e passei a encarar ele, porque um pensamento repentino apareceu na minha mente. — É por isso que ninguém tenta me chamar pra sair? Porque você vive ameaçando bater neles? — É... Não... Não exatamente. — Mas bem perto disso, certo? — A gente pode ter insinuado que você sabia se virar e que nós cuidaríamos do que sobrasse. — Bom saber que existe um "nós" para eu gritar. — Olhei para a Rayna. — Quanto tempo de carro até a sua alcateia? Eu preciso garantir que tenha tópicos suficientes para gritar com eles pelo caminho todo. — Ela riu de novo e o Jeremiah empalideceu, sabendo que eu não estava mentindo. Ele só relaxou quando ela virou o rosto e deu um beijo na bochecha dele. — Ok, vão. Vocês dois estão me deixando enjoada. Eu vejo vocês de manhã. Os dois se levantaram para sair e já estavam na porta quando Jer se virou. — Você precisa de uma camiseta? Eu posso pegar uma. — Eu ainda tenho aquela que você me deu faz alguns dias, então estou bem. Em algum momento eu tenho que começar a desmamar. — E, do nada, a situação voltava a parecer estranha, já que, apesar de tudo o que vivemos, eu não fazia ideia de como a Rayna se sentia em relação a ele me dar roupas com o cheiro dele. — Me avisa se você precisar de mim, ok? — Eu apenas assenti. No entanto, eu não ia gritar chamando ele com a companheira ali. Naquela noite, eu adormeci mais rápido do que nas últimas três, embora eu não soubesse se era porque ele tinha voltado para a casa da alcateia ou porque eu estava tão esgotada que não tive alternativa. Mas foi aí que a noite boa terminou. O som de pneus cantando estourou nos meus ouvidos, o cheiro de borracha queimada ardeu no meu nariz, o sangue cobriu tudo ao redor e gritos reverberaram por todos os lados... Porém, dessa vez, não eram meus pais comigo. Eram Jeremiah, Ben, Tommy e Jason. Eu chamava por eles, mas ninguém respondia, e todos me encaravam com os olhos arregalados, como se não conseguissem realmente me ver. Então eu gritei de novo, percebendo que os tinha perdido. "Eles nem deveriam estar ali. Eles não deveriam estar naquele carro… Por que eles estavam ali?" — Kennedy! Acorda! Ken! Vamos garota, volta para mim! Kennedy! Meus olhos se abriram num sobressalto e, piscando devagar para conseguir focar, percebi que parecia me movendo na lama, com o corpo inteiro mole e incapaz de controlar meus próprios músculos. — Kennedy, a gente está aqui. Você está segura agora, então para de lutar. — Uma calma tomou conta de mim quando o cheiro familiar de sândalo alcançou meu nariz. "Jeremiah…" Inspirei de novo e, dessa vez, uma nota floral suave se misturou ao sândalo, aprofundando a sensação de calma, até que eu percebi que aquele cheiro não era familiar... "Quem mais estava ali comigo? Ninguém podia me ver daquele jeito! Já tinha sido ruim o suficiente o Ben ver…" Parte do meu cérebro tentava ser lógica, embora tudo estivesse enevoado e lento. — Ok… Certo! — Eu arrastei a fala. — Estou…bem. Voltem... — Por que ela parece bêbada dessa vez? Ela nunca soou assim. — Disse Ben, eu achava. — Só cansaço, Ben. Pode voltar a dormir. — Caindo para trás sem conseguir controlar meu próprio corpo. Tive a impressão de que alguns braços tentavam me segurar, ainda que eu não tivesse força nenhuma para reagir. — Kennedy, acorda pra gente, por favor. Só por alguns minutos, depois você pode dormir de novo. — A mesma voz doce sussurrou, ao mesmo tempo em que dedos gentis tiravam meu cabelo da frente do rosto, espalhando no ar um perfume floral tão aconchegante que me lembrou o toque delicado das mãos da minha mãe. — Mãos boas… — Murmurei, ainda sentindo meu cérebro trabalhando de maneira estranha, porque tudo parecia confuso e desalinhado. Quando tentei piscar, tive a sensação de que alguma coisa se movera, ao mesmo tempo em que percebia algo firme envolvendo meus braços que, apesar de constante, não machucava. Logo, inspirei outra vez, por ser a única ação que eu conseguia controlar, e o aperto suave nas minhas mãos me levou a finalmente abrir os olhos. (Ponto de Vista de Ryker) "Eu estava tão cansado de todas aquelas malditas reuniões…" Embora não pudesse dizer isso em voz alta, porque aquela ideia tinha sido minha desde o começo. No entanto, eu simplesmente não esperava que todos aqueles ex-Alfas e Betas fossem um bando de chorões. Eles pioravam a cada encontro, o que explicava por que não tinham conseguido manter suas próprias alcateias. Há anos que não surgiam novos Alfas, e eu não era o mais recente, embora estivesse perto disso. Mas minha história era diferente. Meu pai, ferido gravemente em uma grande guerra, nunca se recuperou por completo, apesar de sua linhagem Alfa e habilidades de cura, e aos dezesseis anos, me nomeou Alfa. "Eu mal acreditava que já fazia dez anos que assumia esse posto…" Eu sabia exatamente o que aqueles garotos estavam enfrentando e preferia ser uma presença constante e firme, em vez de me preocupar com status. Fui rotulado como idiota, mas nunca me incomodei com isso, especialmente quando se tratava daqueles egocêntricos que já não tinham mais razão para estar no cargo. Alguns Alfas mais velhos me temiam, ou melhor, temiam minha reputação, algo que eu aproveitava ao máximo. Afinal, eu não falava muito… Minhas ações falavam por mim, e eu tinha ciência de que muitos daqueles jovens precisavam de alguém para mostrar como se posicionar. — Alfa Ryker? O senhor vai nos ajudar? — O homem diante de mim perguntou, arrancando-me dos meus pensamentos. Edward, o Alfa, liderava uma alcateia pequena e não tinha herdeiros. Sua Luna morreu no parto e ele jamais escolheu outra companheira, nem teve uma segunda chance. Aquilo parecia ser um destino traçado, e, há algum tempo, eu e ele estávamos tratando da transferência da alcateia. No entanto, havia uma ameaça vinda de alguns membros que acreditavam que tinham direito de disputar com ele o posto de Alfa. Além disso, rumores sobre alcateias vizinhas com as mesmas intenções chegaram até mim, trazidos pelos seus guerreiros. Ele havia se mantido firme o quanto conseguiu, mas agora estava mais fraco e vulnerável, não podendo mais arriscar o futuro da sua alcateia. Normalmente eu não me envolveria e deixaria que a alcateia se resolvesse antes de assumir, porém as alcateias vizinhas não eram conhecidas por lidar com seus problemas e encerrar o assunto. Elas provavelmente usariam aquilo como desculpa para matar à vontade, independentemente das vítimas serem inocentes ou não... Isso significava que mulheres e crianças acabariam feridas ou pior. E a luta não terminaria ali, porque se espalharia pelas alcateias ao redor da do Alfa Edward. Era aí que eu entrava. Se o Alfa Edward entregasse sua alcateia para mim de forma voluntária, não haveria, ou haveria muito pouco derramamento de sangue. Entretanto, sempre havia alguém tentando me desafiar, acreditando que deveria comandar, mas isso raramente vinha de líderes ranqueados, que geralmente apoiavam a transferência, pois nós já discutíamos e negociávamos durante meses antes de qualquer fusão. Eles cuidavam de suas alcateias, enquanto eu assegurava que seus futuros líderes tivessem espaço nas minhas fileiras. — Sim, claro, Alfa Edward. Com quanta urgência o senhor precisa que eu esteja na sua alcateia? Estava com a impressão de que aqueles desafiando a fusão estavam sendo controlados… — Acho que eles estavam apenas esperando até acreditarem que eu estaria fraco demais para detê-los ou enfrentar o desafio. Eu recebi relatos de agressões hoje depois que saí. Meu Beta e meu Gama têm famílias jovens, e eu não quero ver ninguém se machucar. Tenho a impressão de que eles vão atacar qualquer um que seja leal a mim ou a você, por isso acho que precisamos transferir imediatamente. Tenho um pressentimento terrível sobre isso. — Não se preocupe. Eu já tenho guerreiros na sua alcateia, que garantirão a segurança dos seus membros até minha chegada. Acredito que o senhor deva permanecer perto de mim, apenas por precaução. Partiremos amanhã de manhã e podemos estar na sua alcateia até o meio da tarde. Peça ao seu Beta para organizar a cerimônia e faremos a transferência assim que possível. — Obrigado, Ryker. — Ele soou tão exausto, como se estivesse se mantendo firme apenas até garantir que sua alcateia estaria em segurança. (Ponto de Vista de Kennedy) — A gente sai em uma hora, então se certifique de estar pronta para uma semana e leve algumas coisas bonitas também. Eu imagino que teremos festas e jantares algumas vezes. — O Jer beijou o topo da minha cabeça enquanto falava. Eu apenas assenti e subi, à medida que encontrava a Rayna no meu quarto mexendo no meu armário, como se fôssemos amigas de longa data. No fundo, eu fiquei impressionada com a rapidez com que a atitude dela em relação a mim mudou, já que foi instantâneo assim que ela me ouviu dizer que não tinha atração pelo Jer. Na verdade, acreditava que ela devia ser capaz de detectar mentiras, porque eu sabia que o tio James também conseguia, algo típico daquele sangue maluco de Alfa. — Precisa de alguma coisa em particular? — Eu acabei rindo quando ela levou um susto, já que parecia tão focada revirando minhas roupas que nem percebeu minha aproximação, mesmo sendo uma lobisomem que deveria ouvir qualquer coisa. — Só de você. — Ela piscou para mim. — Você já contou para ele? — Contei o quê para quem? — Ela conseguia me deixar tensa com aquelas perguntas enigmáticas. Ela sorriu para mim. — Você já contou para o Jeremiah que está tendo ansiedade de separação? — Eu não estou tendo ansiedade de separação. — Seus pesadelos começaram a piorar quando você fez dezoito, certo? — É, acho que sim, mas eu sou humana, então por que eu teria ansiedade de separação em relação ao meu melhor amigo? — Não faço ideia, embora eu ache interessante que você sinta essa necessidade constante de lembrar a todos que é humana, inclusive a si mesma. Mesmo assim, você treina e luta como uma loba, come como uma loba, tem um temperamento de loba… — Ela me lançou um olhar desafiador, esperando que eu negasse. — Você reage a cheiros como uma loba e claramente reage a mudanças na sua alcateia. Você é mais conectada do que pensa. — Eu nunca tinha pensado por esse lado, já que convivi com a alcateia a minha vida inteira. — Eu dei de ombros e me aproximei dela. — Bom, enquanto você me entretém com suas teorias, eu preciso tomar banho e fazer as malas. Tem alguma ideia do que eu preciso levar? O Jer comentou que pode ter algumas festas ou jantares. A Rayna se divertiu horrores mexendo no meu armário e descobrimos que tínhamos o mesmo tamanho, então ela me deixou pronta em pouquíssimo tempo e ainda disse que eu poderia pegar emprestado qualquer coisa que tivéssemos esquecido. Depois que tudo foi arrumado, nós entramos em um dos SUVs de sete lugares do Alfa, enquanto mais dois guerreiros nos seguiam no SUV branco da Rayna. O Jason sentou atrás comigo, sendo aquele ursão de pelúcia sempre disponível para aconchegar e, ao contrário do Tommy, respeitando bem o próprio espaço, então eu me enrolei em um dos moletons enormes do Jeremiah e tentei me acomodar para tirar um cochilo, se conseguisse. (Ponto de Vista de Ryker) Assim que estacionamos nos portões do território do Alfa Edward, eu já percebi que havia problema, porque eles claramente esperaram ele sair para a reunião que marcamos para poder armar isso aqui. No entanto, eu realmente estava cansado demais para essa merda, já que eu deveria estar seguindo para o encontro com os novos Alfas e aliviar minha irmã e meu pai, em vez de lidar com aspirantes a líder. Afinal, eles só deveriam me representar na primeira noite. Logo, desci do carro devagar, ajustando a camisa e abotoando o blazer enquanto fazia tudo de propósito para irritar o guarda que colocaram ali, porque se eles estavam me causando incômodo, eu não tinha problema nenhum em devolver o favor. — Não precisamos de você. Volte para a sua alcateia de gananciosos. O Alfa Edward está fraco demais para nos proteger e nós já temos um novo Alfa. Porém, ele não está recebendo visitas neste momento. Pelo menos ele simulou alguma educação, apesar de eu perceber a fraqueza dele de longe, e aquela coragem só existiu porque ele provavelmente se ofereceu para o posto, acreditando que iria impressionar o idiota que jurava estar no comando. Assim, eu continuei tirando poeira imaginária do terno, sem olhar para ele. — Você está olhando para o seu Alfa. Acho que não fomos apresentados formalmente. Alfa Ryker, da Alcateia da Lua Sombria. Você está bloqueando ilegalmente minhas terras, então eu preciso que saia da frente. Pronto, missão cumprida. No fim das contas, ninguém podia reclamar da minha educação, apesar do… Tédio evidente. — O Alfa Dean não se submeteu a você, portanto ele é o nosso Alfa neste momento. Ele parecia confuso ao falar, como se nem tivesse certeza de quem era o Alfa de verdade, embora percebesse claramente que eu era mais forte do que esse tal Dean. — Alfa Dean, foi isso que você disse? Ele não me desafiou e eu já estou no comando dessa alcateia há… — Eu olhei o relógio. — Trinta e duas horas. Nesse instante, o Alfa Edward saiu do carro e, para seu crédito, se manteve firme ao meu lado, apesar de permanecer em silêncio enquanto lançava olhares assassinos para esse sujeito. Ele claramente era um problema mesmo nos melhores dias e não faria falta nenhuma quando eu o eliminasse. — Então ficamos num impasse. Eu preciso ter uma conversa com o líder arruaceiro de merda agora mesmo. Avise que estamos indo até ele. Eu fiz sinal para Edward voltar ao carro. Era claro que pedir para aquele imbecil nos deixar passar e encontrar o Alfa de araque dele era demais, ainda que a tentativa tivesse valido. — Você não vai a lugar nenhum. Saia da nossa alcateia ou nós seremos obrigados a declarar guerra. A voz era alta, mas tinha um leve tremor. "Perfeito." Assim, soltei uma risada sem humor e virei devagar para encará-lo. — Quem é esse "nós" que você mencionou? Você tem amigos invisíveis de quem eu deveria me preocupar? Você claramente não tem autoridade para fazer uma ameaça dessas. Eu realmente não deveria me divertir tanto ao deixar gente burra perdida. — Você está nas minhas terras e, se não sair da frente, eu vou quebrar suas pernas e obrigar você. — Nossos guerreiros estão a caminho, saia agora antes que você tenha ainda mais problemas. Era quase adorável ele acreditar que aquilo era um problema, já que, para mim, ele não passava de um mosquito fácil de esmagar. Diante disso, avancei até ficar frente a frente, prendendo o pescoço dele com a mão antes que ele tivesse tempo de respirar novamente. — Isso não significa nada, e eles chegariam tarde demais. Você acabou de gastar a sua última chance. — Minha voz saiu baixa e ameaçadora enquanto eu apertava, deixando minhas garras se estenderem e afundarem na pele. — Eu sou seu Alfa, não costumo repetir ordens e nunca vou permitir desobediência. Chame o Dean agora. Ele pode me desafiar pessoalmente, e a única pena é você não presenciar o que eu faço com fodidos insubordinados como você e ele. — Eu rosnei fundo no peito, liberando minha aura de Alfa até o ponto em que ele não podia recusar, mesmo se quisesse. (Ponto de Vista de Ryker) Quando o amanhecer começou a despontar, eu finalmente cheguei, sendo deixado pelo guerreiro na porta da frente da casa da alcateia antes de ele seguir para a própria casa. Meu lobo já tinha retomado a forma humana e nós estávamos exaustos, ainda cobertos de terra e sangue, embora tudo tivesse valido a pena, porque tínhamos enfrentado apenas algumas lutas e houve menos de uma dúzia de feridos, assim a maior parte da alcateia mal percebeu o caos. Em seguida, eu subi em direção à maior suíte de hóspedes, ao lado da de Edward, já que eu não o expulsaria do espaço dele, agora que tinha assumido o comando da alcateia, principalmente porque eu tinha minha própria casa e meu próprio território. Com isso, ele podia continuar vivendo seus dias no lugar que lhe pertencia nas dependências principais da casa. Eu tomei banho, deixando a água quente deslizar pelo meu corpo enquanto removia toda a sujeira e sentia minha musculatura aliviar de imediato depois de tantas horas no carro e da corrida noturna. Naquele instante, estava começando a relaxar e minha mente já montava a lista mental do que eu precisava fazer quando uma brisa fria entrou no banheiro e o cheiro artificial de rosas invadiu minhas narinas, fazendo meu rosto se contrair. Então eu me virei e agarrei a garota pela garganta depois de deixá-la se aproximar. Se tivesse sido um homem, ele já estaria morto. No fundo, sabia que isso me tornava algum tipo de chauvinista, e que me julgassem, já que eu nunca alegara ser perfeito. Os olhos dela estavam escancarados, mas não mostravam medo, até porque claramente a haviam enviado e lhe dito exatamente o que esperar. — O Alfa Edward achou que o senhor pudesse querer ajuda para relaxar. — A voz aguda e anasalada dela soava um pouco irritante, embora o incômodo fosse compensado pelo corpo nu, já que o cabelo escuro caía até o meio das costas, os seios enormes certamente saltariam de forma tentadora e as curvas apareciam exatamente nos lugares certos. — Eu posso ajudar se quiser, senhor. — Ela não demonstrava timidez nem hesitação, ainda que eu também não sentisse nela aquela ambição vazia por poder. Aquilo fazia parte do papel que desempenhava na alcateia e a ideia de existir um harém para visitantes me deixava um gosto amargo. Porém eu interrompi esse fluxo de pensamentos e aceitei a oferta. Já fazia tempo demais e, sendo assim, apenas assenti e a guiei até ficar de joelhos diante de mim enquanto eu bloqueava o jato d'água com as costas. Eu a encarei de maneira significativa. Eu não era um completo idiota e, se ela não quisesse aquilo, eu não insistiria, embora estivesse óbvio que ela entendia por que estava ali e o que eu esperava. No mesmo instante, ela envolveu meu pau ereto com a mão e começou a me masturbar, alternando ritmo e intensidade sem quebrar o contato visual. Em resposta, inspirei profundamente, estremecendo ao sentir um toque diferente do meu e, depois de ultrapassar o primeiro impacto, entrelacei meus dedos no cabelo dela e a puxei para frente. Eu não a obrigaria, mas queria deixar claro o que eu queria. No entanto, permaneci calado, já que não pretendia conversar, pois sempre era melhor quando elas não falavam, uma vez que a conversa criava vínculos que jamais teriam qualquer destino. Enquanto ela abria a boca e achatava a língua para facilitar minha entrada, deslizei lentamente até alcançar o fundo da garganta, o que a fez gemer. Essas vibrações percorreram meu corpo e me deixaram ainda mais rígido. E, por não conseguir me engolir por inteiro, ela usou a mão para estimular a base. Logo, soltei seu cabelo e apoiei as mãos nas paredes ao redor, dando espaço para que ela comandasse. A forma como ela lambia, sugava e explorava minha extensão era precisa, deliciosa. Assim, quando decidiu tirar da boca, o toque permaneceu ininterrupto. — Eu quero que o senhor foda a minha boca do jeito que quiser, tão forte e tão fundo quanto desejar. — A voz aguda dela era irritante, mas o convite era mais que suficiente para manter meu ritmo. Foi tudo o que eu precisava para agir. Enrolando os dedos no cabelo dela com firmeza, avancei repetidas vezes, afundando até a garganta e forçando-a a engasgar, sem me importar, apenas tomando o que queria. Com isso, ela agarrou minhas coxas, embora não demonstrasse qualquer intenção de me parar. — Esfregue o clítoris, eu quero sentir seus gemidos. Não goze até eu mandar. Ela obedeceu sem hesitar e, à medida que as vibrações aumentavam, senti meu corpo se aproximar do limite, apesar de aquilo ainda não bastar. Diante disso, fechei os olhos, porque ela não combinava nem um pouco com meu tipo. Mas minha imaginação sempre tinha trabalhado a meu favor, então continuei avançando contra o rosto dela enquanto visualizava lábios carnudos, olhos azul-claros fixos nos meus e cabelos loiro-escuros enroscados nos meus dedos. Eu carregava aquela imagem da mulher perfeita desde que me lembrava e jamais soube explicar por quê, mas nenhuma real chegava perto dela. Portanto, permitia que apenas morenas me tocassem porque a única loira que eu desejava era a que aparecia nos meus sonhos. No fim, eu nunca conseguia gozar sem trazer aquela visão à mente, independentemente de quão bonita ou habilidosa fosse a mulher que estivesse comigo. Por sinal, a mulher que estava comigo agora parecia prestes a perder o controle. Seus gemidos tinham ficado mais altos e irregulares, e ela passou a sugar com intensidade, afundando as bochechas numa última tentativa de me puxar para o desfecho. Diante disso, bastaram alguns movimentos firmes para que eu gemesse, liberando meu orgasmo na garganta dela. — Goze forte para mim. — Rosnei, fazendo com que ela vibrasse inteira antes de gritar, tomada pelo próprio ápice, engolindo cada gota sem questionar. Não era como se eu tivesse deixado margem para outra escolha. Aprendi isso no pior cenário possível, quando uma loba tentou recolher meu sêmen e enfiá-lo à força após eu me negar a transar com ela. Na verdade, nunca compreendi o que ela achou que resultaria daquilo, porque sem cio não havia chance de gravidez, mas aquilo foi o suficiente para nunca mais arriscar. "Algumas delas eram verdadeiras insanas…" Assim que acabei, dei apoio para que ela se levantasse e retornei ao chuveiro para continuar me ensaboando, e ela simplesmente saiu em silêncio, compreendendo a mensagem. Eu não oferecia retorno algum, recusando beijos, proximidade ou carinho, porque só tomava o que precisava e o que elas aceitavam dar… Nada além disso. Tentei voltar para a minha lista, embora aquela vibração estranha sob a pele continuasse ali, sem qualquer relação com a alcateia de Edward ou com a garota que tinha acabado de me satisfazer, e isso já me acompanhava havia dias. Eu ainda não sabia se era algo bom ou ruim, apenas entendia que não era ansiedade nem perigo, só uma sensação impossível de identificar que estava me distraindo além do aceitável, algo que eu não podia permitir, então esperei que algumas horas de sono resolvessem. (Ponto de Vista de Kennedy) Aos poucos, senti minha consciência retornar e notei que tinha dormido muito bem, imaginando que isso só acontecera porque todos os garotos estavam no carro comigo e porque havia algo em Rayna que me transmitia uma tranquilidade estranha. Eles sempre foram meu abrigo, e a presença deles juntos me colocava no eixo, mas nenhuma mulher jamais tinha me feito relaxar o bastante para dormir, nem mesmo a tia Beth. Talvez fosse porque Rayna fazia parte do Jer, como se a nossa conexão também se refletisse nela graças ao vínculo de companheiro. "Quem sabe…" Sempre que eu pensava entender a natureza dos lobisomens, algo surgia para bagunçar tudo, fazendo-me questionar coisas que deveriam ser óbvias, como a questão dos companheiros. Com a natureza dos pesadelos que eu tinha quando dormia sozinha na minha cama, qualquer pessoa diria que eu deveria ter algum tipo de trauma ao andar de carro, porém nunca senti medo algum nessas situações. Nunca mesmo. E isso era muito estranho. Eu despertei por completo quando o SUV reduziu a velocidade e percebi um cheiro diferente à minha volta. — Ben? — Perguntei roucamente enquanto me erguia devagar, esfregando o rosto e observando ao redor. — De onde você saiu? — Eu podia jurar que Jason era meu travesseiro quando tínhamos partido. — Acho que você finalmente conseguiu o sono que precisava, Ken. Estamos dirigindo há quase quatro horas. Cada um de nós fez turno sendo seu travesseiro e você não se mexeu nem um pouco. — Ele comentou com um sorriso raro. — Até a Rayna ficou com você. Ao ouvir isso, olhei para o banco na diagonal e ela sorriu. — Como não percebi as bundas gigantes de vocês entrando e saindo do assento? Eu até entendo a Rayna chegar aqui sem ser notada, mas vocês três? Nem pensar. Vocês me drogaram ou algo assim? — O banco da terceira fileira não tinha portas, então certamente fora complicado para eles passarem por ali. — Não, mas claramente você precisava descansar. Está se sentindo melhor? — Ele voltou a parecer preocupado. Lá no fundo, eu torcia para que ele parasse de me olhar daquele jeito. Eu conhecia o carinho dele, só que, às vezes, como agora, aquilo parecia extrapolar. Ele tinha uma companheira em algum lugar, e eu não entraria nessa bagunça. Assim, eu virei o rosto para a janela. — Sim, obrigada. Onde estamos agora? — Eu precisava tirar o foco de mim e dos meus hábitos de sono. — Estamos prestes a cruzar para o território do meu irmão. — Rayna respondeu, olhando para trás com um sorriso. Era óbvio que ela amava o irmão, independentemente da reputação dele. Como se ela os tivesse invocado, vários lobos surgiram correndo da floresta ao redor, espalhando-se por todos os lados enquanto o carro reduzia a velocidade até parar, o que me fez assumir que aquele lugar funcionava como um ponto de verificação. Estávamos subindo uma colina e, por isso, quase não havia como enxergar as terras da alcateia além da vegetação que nos cercava. Assim que Jeremiah abaixou o vidro para se apresen tar ao guerreiro que tinha acabado de voltar à forma humana, meus olhos quase foram por conta própria, porque, apesar de toda a nudez que eu já tinha visto desde que descobri os lobisomens, eu continuava incapaz de ignorar um homem lindo, musculoso como se treinasse o dia inteiro e, acima de tudo, impressionantemente bem equipado. "Caramba…" Talvez eu conseguisse me divertir um pouco enquanto estivesse aqui, já que os caras da minha própria alcateia tinham sido proibidos de chegar perto de mim, embora eu precisasse ter cautela caso esses lobos fossem minimamente parecidos com os rumores que circulavam. Logo, Rayna abaixou o vidro, e eu percebi que tinha perdido toda uma conversa enquanto babava pelo guerreiro. — Ele está esperando por nós, Danny. Este é Jeremiah, meu companheiro, e este é o Beta Ben, Gama Jason, Delta Tommy e a Chefe dos Guerreiros, Kennedy. — Danny assentiu conforme ela dizia nossos nomes e nós retribuímos. Em seguida, ele me lançou um sorriso cheio de charme. — Danny é o Delta do meu irmão e deveria estar com ele nas negociações. — Ela o repreendeu, apesar de parecer zero surpresa por encontrá-lo ali. E aquela apresentação tinha sido generosa demais, até porque não era nada daquilo, mas não iria corrigi-la naquele momento. De algum modo, em apenas um dia, ela tinha passado de me odiar para exagerar nas minhas qualidades. — Ah, eu estou aqui sob ordens específicas para a sua chegada, Rayna. — Ele falou, e fiquei sem saber se o jeito como me encarava era mais de jogo ou de ameaça, pois aquele sorriso ambíguo podia carregar qualquer significado. Quando o Delta Danny nos deu passagem, seguimos adiante, e eu me esforcei para observá-lo sem chamar atenção, mesmo percebendo que o resmungo à minha direita indicava que eu tinha falhado miseravelmente. Aquele som bastou para que eu voltasse o olhar para frente, onde minha mandíbula despencou. (Ponto de Vista de Kennedy) — Caramba, Rayna. Sua alcateia é linda demais! — Eu exclamei. A colina que estávamos subindo não se curvou de volta para um vale como eu tinha imaginado, mas simplesmente se nivelou e revelou árvores cheias e exuberantes, algumas já começando a mudar de cor com a estação, enquanto o caminho por onde passávamos aparecia muito bem cuidado e as árvores maiores formavam um dossel natural sobre nós. Ao passarmos pela longa estrada de entrada, a trilha se abriu para uma cidade grande, com aparência clássica e de outra época. Era o tipo de cenário que alguém colocaria em cartões de Natal, com prédios de tijolos vermelhos e vitrines enormes. Tudo era acolhedor e convidativo. Parecia que havia quarteirões inteiros se estendendo até bairros residenciais. Mesmo sabendo que essa alcateia era grande, eu não tinha noção da real proporção. Cruzamos uma praça central, com uma rotatória contornando um gazebo decorado para alguma ocasião, ao mesmo tempo que, mais à frente, um parque enorme se abria, e eu ainda consegui distinguir o topo distante de um brinquedão. Naquele instante, eu estava certa de que me divertir explorando tudo aquilo. Conforme entrávamos mais fundo no território da alcateia, eu avistei o primeiro prédio com aparência industrial e, logo além, algo que parecia assentos de estádio... Assim, fiquei imaginando se aquilo fazia parte da escola deles. — Ei, Rayna. O que é aquilo ali? — Apontei para o prédio e para os assentos. — Ah, aquele é o nosso campo de treino. Meu irmão construiu a alcateia de um jeito tão grande que recebemos grupos de guerreiros do país inteiro para treinar, então o prédio é um dormitório para eles ficarem enquanto estão aqui. — Quando eles treinam? Eu adoraria assistir. — O treino da noite começa daqui a algumas horas. Por que não passamos primeiro na casa da alcateia para deixar nossas coisas, trocar de roupa e comer algo, e depois visitamos juntos? Tenho certeza de que os garotos vão querer se mexer depois de terem servido de travesseiro a viagem inteira. — Ela riu de mim. — Comida? Que ideia maravilhosa! — Tommy cantou ao lado dela, e todos nós rimos. Ela guiou Jeremiah pela cidade, apontando lugares enquanto seguíamos, e eu mal consegui fechar a boca. Aquilo não tinha absolutamente nada a ver com os rumores, pois tudo era atemporal e deslumbrante. Pouco depois, chegamos à casa da alcateia, que era extremamente imponente e tinha um toque de arquitetura do velho mundo também, embora eu não tivesse tempo de admirar por muito tempo, porque meus meninos estavam famintos e apressados. Logo, uma das ômegas nos levou aos nossos quartos. Eu me surpreendi ao descobrir que estávamos no andar do Alfa como convidados. Porém quando comentei isso com Rayna, sua explicação me esclareceu e me confundiu ao mesmo tempo. Eu jamais tinha entendido direito a cultura de hierarquia das alcateias e, como nunca pensei que outras pudessem funcionar de outro jeito, acabei criando minhas próprias suposições. Imaginava que o Alfa e a família imediata preferissem ocupar um andar inteiro para manter distância da alcateia, quase como celebridades que cercavam suas mansões para afastar paparazzi. Aquele espaço permanecia restrito às ômegas designadas. Só depois que a tia Beth me acolheu é que me permitiram subir até lá. Na época da mudança, até o Jeremiah desceu para o meu andar para ficarmos mais próximos, o que, por sua vez, ajudou bastante com os pesadelos. Pelo que entendi, como o quarto de Rayna ficava nesse andar e Jeremiah era um Alfa e deveria ficar com ela, obviamente sua equipe inteira precisava ser acomodada perto dele. Era uma forma de nos fazer sentir mais à vontade, já que ficarmos todos no mesmo nível evitava que ficássemos desconfiados por estarmos separados. Ou seja… Recebíamos tratamento especial porque vínhamos junto com Rayna como um grupo completo. Quando chegamos ao andar, eu parei imediatamente ao sentir o cheiro mais incrível que já senti na minha vida: Era alecrim com menta e alguma coisa intensamente masculina. Quem estivesse usando aquele perfume provavelmente seria atacado por mim mais tarde, porque aquilo fazia meu corpo inteiro formigar de um jeito completamente novo. No entanto, percebi que o aroma tomava todo aquele andar enquanto caminhávamos em direção aos nossos quartos, e fiquei imaginando se era algum guerreiro responsável pela patrulha dali. "Droga. Todas as minhas partes íntimas estavam em alerta máximo!"